Meme e bom senso ainda não se conheceram

Se empregassemos a criatividade e o tempo que nós, brasileiros, gastamos em redes sociais inventando, contando e rindo das próprias piadas, certamente seriamos levados mais a sério pelo resto do mundo. Nada contra o bom humor, claro que é importante sim. Mas o bom senso é tão importante quanto. Poxa, mal o norte-americano candidato republicano ascendeu à casa branca, como num passe de mágica, milhares de mensagens de repúdio, montagens, piadinhas, etc, começaram a circular nos  grupos e redes sociais feito água de enchente. Se alastram viralmente mais do que o Chikungunya e Zika virus juntos, inclusive lembrando que esses dois infortunios da natureza também estão na mira dos mesmos  engraçadinhos estapafúrdios que não fazem ideia do que é adoecer ou padecer pela perda de quem se ama, vítima desses nem tão engraçados “passageiros” de mosquitos. O mais intrigante nisso tudo, é que rimos das piadas, compartilhamos as mensagens, comentamos sobre os possíveis males, apontamos os erros alheios e mais uma infinidade de opiniões despropositadas, mas na hora de chutar o balde desta bandalheira política que anda transbordando com a delapidação dos nossos bolsos, esvaziando discaradamente os cofres públicos, sobretaxando nosso trabalho, ignorando nossa indignação, simplesmente ficamos na inércia feito palhaço que ri da própria face frente ao espelho. Pior, criamos mais um “zilhão” de piadas, memes, frases de efeito, críticas sem pés nem cabeça e seguimos espalhando toda essa bosta humana no ventilador da Internet. E o bom senso onde anda? Rir da própria ignorância ou da desgraça alheia agrada tanto quanto sair dissiminando a estupidez mundo a fora? Como poderemos ser encarados como um povo sério se a única coisa realmente séria é esse complexo de inferioridade e discenso sobre a realidade na qual estamos afundando e que não tem graça nenhuma. Fala-se dos efeitos midiáticos sobre as massas como agente responsável pela alienação, quando na verdade somos todos alienados por não conseguir ou querer enxergar o próprio rabo e rirmos da própria dor ao deixá-lo solto para os outros pisarem. Que loucura de comportamento é esse? Ser engraçado as vezes é bacana sim, mas atestado de estupidez com selo de qualidade e tempo ilimitado, ninguém merece!

Honestidade na fila do desemprego.

Num dilema moral, a honestidade, como tudo que do homem provém, facilmente relativisada, ou até mesmo desprovida de entendimento diante do olhar cético, perdeu, se é que de fato algum dia possuiu, um sentido reto. Nos dicionários encontramos esta palavra significando qualidade daquele que é puro, casto, honrado, virtuoso, razoável, justo, etc. Conceitos morais definidos pelo homem e, para ele próprio, qualificador dos seus atos. Por esse prisma, podemos dizer que um homem honesto equivale a uma pessoa que atende, respeita e pratica os princípios morais naturais ou adquiridos no decorrer da sua existência. Moral essa que herdamos de outras gerações, num saber antropológico e resultado da explícita necessidade de sobreviver, seja em bandos, seja de forma isolada mantendo um mínimo de respeito, tolerância e bom senso.

Complementarmente, quanto a “moral”, defino aqui como: conjunto de regras norteadas em costumes de boa conduta social e individual para com tudo e com todos que estão a volta e, que de alguma forma, direta ou indiretamente, tenha estreita relação com o bem estar de todos e do meio que lhe provê a vida. Pode ser, e creio nisso, que o leitor tenha opinião distinta. Porém, em resumo, no fim, todas as definições convergem para um mesmo ponto, buscando ponderar a ação e o seu resultado.

Outro dia, li uma frase curiosa que dizia: “O homem honesto é um animal em extinção”. Não sei se a autoria da frase pertence mesmo ao Lucêmio Lopes da Anunciação, mas de qualquer forma e independente de quem a criou, metaforicamente o autor verbalizou aquilo que na prática acontece desapercebidamente no cotidiano e avança desenfreadamente para a extinção. Não aponto o dedo para mim, que escrevo essas linhas, julgando-me impecávelmente honesto, mas trago a margem rasa o que a muito se perdeu da realidade e do senso comum sobre o sentido, embora subjetivo, da virtude da honestidade. Igualmente, não discorro sobre um ideal filosófico, menos ainda tento definir a honestidade num conjunto fechado e imutável de regras a serem religiosamente seguidas, porque isso poderia soar utópico. No entanto, coloco o dedo na ferida humana da conduta moral que respeita o que, notoriamente e sem margem para discussão, é bom e gera o bem e o que experimentadamente é mal e causa desconforto a qualquer homem sem distúrbios de comportamento de fundo fisiológico ou piscológico que o tornem exceção.

Na psicologia a tratativa desse tema aponta para o que os profissionais do meio chamam de “Postura de valores”. Em resumo, caracteriza-se pela tendência que as pessoas tomam no julgar determinados objetivos ou disposições de ação. Quando atribuimos valores a honestidade temos diferenciados pesos e medidas. Para alguns a honestidade é uma atitude indispensável sob qualquer circusntância, para outros é igualmente importante, no entanto, admitem que em determinadas situações uma “mentirinha”, por exemplo, é justificável, ao passo que para outras ainda a honestidade esta atrelada a tipos de comportamento subordinados a outros valores. Assim, diferentes tipos de “postura” se apresentam como características relativamente estáveis do indivíduo, dependendo porém, do ambiente externo onde se encontram.

Na teoria é o mesmo que: se educados em um meio honesto, onde a “postura de valores” dos educadores é direcionada para o bem, rechaçando o mal e valorizando o que é bom (aqui não discutiremos os pormenores da compreensão entre o bem e o mal, pois correriamos o risco de atolarmos em múltiplos conceitos e relativizações que não nos levariam , na prática, a lugar algum) tornaria todos seus sucessores pessoas com “postura de valores” boas.

Apenas para reforçar, entendamos o “bem”, aqui posto, como o ato, a ação individual ou coletiva, que dentro de uma cultura, de uma sociedade, seja reconhecida como tal. Por exemplo: Na cultura ocidental, de maneira geral, quando auxiliamos uma pessoa com dificuldade visual a cruzar uma rua estamos agindo dentro de um padrão de comportamento aceito e reconhecido pela maioria com algo bom. Num exemplo inverso, ao levarmos nossos animais de estimação para um passeio e deixarmos suas necessidades fisiológicas (fezes) na calçada, sem que recolhamos, é em consenso geral, uma ação má. A partir daí, poderiamos listar um sem fim de ações positivas e seus inversos para cada sociedade. Admitindo, nesse caso, que os bons costumes pertencem a maioria. No entanto, mesmo que de forma superficial e não filosoficamente aprofundada, a maioria de nós tem claramente a noção do bem e do mal diante das atitudes e experiências.

No entanto, se na teoria a honestidade aponta sua bússola para o norte, na prática, por sua vez, não funciona com o mesmo magnetismo. E é nesse ponto que a “postura de valores” entra em ação e faz o trem das emoções e razão humana descarrilharem. A honestidade, como um vagão desse mesmo trem, tem em seu interior uma carga de valores bastante pesada, tal qual ocorre com a carga líquida por exemplo. Está condicionada aos movimentos do trem, podendo, de acordo com o ângulo da curva e a velocidade, levar todo seu peso de uma só vez para uma das extremidades do compartimento causando o desequilíbrio dos vagões e, em função desta equação física, sair do rumo.

Obviamente não generalizarei, já que o bom senso não permite. Incluo-me na mesma parcela de pessoas que mantém uma “postura de valores” onde a honestidade é uma atitude indispensável e atrelada a tipos de comportamento ou valores que pesarão no momento da ação. Por isso, sigo inclinado para o bem, evitando qualquer escolha que possa pender para ações que causem o mal a outrem. É necessário pontuar que não podemos confundir honestidade com justiça, pois a exemplo do bem e do mal, novamente teriamos que mergulhar em conceitos mais profundos do que o necessário para a compreensão razoável sobre um comportamento honesto.

Recentemente, no país do Tio Sam, um caso típico de comportamento honesto, ganhou destaque na mídia e foi anunciado com grande espanto para o mundo, acreditem. Um motorista de táxi norte-americano encontrou no seu veículo uma sacola recheada de dinheiro (não lembro a quantia exatamente, apenas sei que era bastante dinheiro) e prontamente procurou o dono esquecido e fez a devolução. Mas por que o caso impressionou a opinião mundial e foi parar nas principais manchetes dos noticiários? Ora, a honestidade apareceu, repentinamente, da cova onde fora enterrada. Sim, espantoso, existem pessoas honestas, é o que noticiou a reportagem. Este alarde, surpreendentemente, mostra a face oculta da realidade humana. Afinal, para os que possuem valores, ou como a psicologia prefere classificar, “postura de valores” direcioanda para o bem, esse tipo de atitude não deveria causar o frisson que causou. Em regra, deveria sim, ser uma atitude, no mínimo, corriqueira entre todos nós.

Isto reforça que a opinião geral sobre nós mesmos não é das melhores e reflete o quanto estamos desacreditados do comportamento humano. Pior, a pessoa honesta virou exceção a regra. Atitudes honestas como a do motorista que devolveu o bem alheio, foi considerada por muitos como uma “possibilidade”. Dúvida do tipo ser ou não ser correta a atitude de devolver o dinheiro. No que pese esta visão, questiono se esse espanto todo não é apenas o reflexo de estarmos paulatinamente incorporando a falta de ética nas atitudes sócio-políticas que assistimos diariamente? Se, conformardos com o mal a que estamos expostos, aceitamos de forma passiva e consciente como natural tais ações desonestas dentro das nossas relações sociais e interpessoais? A honestidade não deveria nos causar espanto algum e sim o inverso, certo?

A reflexão, por ora, fica por conta de cada indivíduo sobre sua “postura de valores”. Postura que por vezes é frágil quando surge gratuitamente qualquer possibilidade de obter “vantagem” individual. Assim, como na política, por exemplo, onde tudo o que assistimos é um bando de indivíduos facínoras alimentando a desonestidade e consequentemente contaminando toda a sociedade, ao agirmos desonestamente, ampliamos esse câncer moral para todas as esferas (públicas e privadas) e sem qualquer peso e medida promovemos um rol ainda maior de hipócritas estimuladores do desemprego da honestidade.