Livresco talvez

antes que o sol acorde
aporto no café de todos os dias
ancorado no alvoroço apressado de um entra e sai
repito-me no mesmo canto
na xícara com café, leite e letargia

toda manhã

a percorrer páginas
desvendar mundos alheios
todos distintos, alguns parecidos
outros distantes, há muito esquecidos

no meu mundo

alarido de gente passante
vai-se embora desapercebido
foge do alcance quanto mais distante
feito eco que sussurra no ouvido

ignoro

eis-me ali novamente
como outras e outras e outras vezes
tantas em páginas de mil histórias lidas
mergulhando em múltiplas vidas
de desiguais interesses

o tempo que move o dia

anuncia o atraso de sempre
e num suposto último parágrafo
alerta a hora da partida
onde deixo-me na caneta que marca
sufocada entre as páginas expremidas
feito tinta paciente a aguardar

a dose diária de realidade e fantasia

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(batschauer)

 

 

 

 

 

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Fragmentos de Pessoa – Livro do Desassossego

download“Em todas as minhas horas libertas uma dor dormia, floria vagamente, por detrás dos muros da minha consciência, em outros quintais; mas o aroma e a própria cor dessas flores tristes atravessavam intuitivamente os muros, e o lado de lá deles, onde floriam as rosas, nunca deixava de ser, no mistério confuso do meu ser, um lado de cá esbatido na minha sonolência de viver”. (Fernando Pessoa)

Divã

Meu divã é minha imaginação
Um aglomerado de histórias infantis
Um baú de recordações que alimenta o presente
Com tudo que foi bom
Com tudo que foi ruim
Com tudo que foi e não volta mais

Meu divã são as palavras que escrevo
Apresentam-me a mim mesmo
São todos os ditos poéticos e descritos arquétipos da minh’alma
De uma mente que não se explica
Ou uma alegria que se sente
Até da tristeza que não compreendo

Meu macio divã são os pensamentos por onde flutuo
São passantes nuvens e sonhos amórficos
Memórias de um corpo indivíduo
Visões translúcidas dos meus frágeis vidros verdes
Que memorizam e perdem todas as imagens guardadas
Misturam datas, nomes, cores e temores

Meu solitário divã sem macias almofadas
Não representa sentimentos teatrais
Nem exprime conforto em razões pontuais
Serve-me apenas como trampolim emocional
Como base racional

Divã de papel e tinta
Multiformas desenhadas do que sinto
Escancara imagens fechadas de mim mesmo
Transcreve-me num eu que são muitos distintos
Todos, ao mesmo tempo, numa só essência

Meu divã, meu confiossionário, meu diário
Meu ontem, meu hoje e onde estarei amanhã
Sempre dentro de mim
As vezes fora de si
Outras sem saber onde ir
E no final de cada linha, volto para o embaraço poético da vida
Para um conto real quase sempre sem rima
Retorno a desenhar estrofes de estranhas entranhas
De um eventual analista escritor
Um de signo aventureiro
Suposto haríolo do sentir

Acabo sempre neste divã de letras, papel e tinta
Termino aqui neste assento literal onde sempre começo
N’algum lugar onde desnudo fantasias
E reescrevo-me quantas vezes impreciso for
Literalmente, todos os dias

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Donostia (San Sebastian), País Basco

(batschauer)

O lamento do silêncio

Quando me perco de ti

As horas se tornam dias que viram noites que viram dias
O silêncio é barulho ensurdecedor que trás o passado que vira presente
que do futuro se distancia

As cenas de uma vida se repetem

Nas lembranças, constantes, tocam o chato refrão gravado, que ecoam na mente que sente, e se repetem, e se repetem, e se repetem…

Quando me perco de ti

A saudade ganha força no corpo todo que enfraquece
O lamento rodopia feito moscas no vidro aberto e como
atordoadas lembranças que não encontram a saída da mente que voa cega
viram zumbidos de dor que se propagam feito eco
Pulsam feito veia entupida no cerne oco da aflição estática
A distância, que não havia, amplia, amplia, plia, ia
Crescem, nos meus olhos, horizontes conzentos que se perdem
Reverberam lamentos mudos na concha que se fecha
a sussurrar restos de uma vida sem rumo
No silêncio que segue, que segue…

(batschauer)