Tecnodependência ou apenas excesso?

Nenhuma novidade que o ser humano tem grande fascínio por substâncias que entorpecem seus sentidos. Uma satisfação que transforma-se em hábito. Noutras vezes, dependência para uma vida.

Ninguém está imune, não há vacina, nem tratamento preventivo para estas tentações que nos são possíveis e relativamente fáceis de se obter. Das mais populares as mais desconhecidas, muitas formas e tipos emergem diariamente em nossas vidas. Poder-se-ia listar um sem fim de entorpecentes, de substâncias naturais ou sintéticas que nos provocam alterações físicas e psíquicas e consequentemente, em boa parcela dos mortais, dependência química e psicológica. Algumas nocivas, porém socialmente aceitas, como cigarros e bebidas alcoólicas; outras corrosivas como “crack, heroína, metanfetaminas e por aí a fora. Todas, rotuladas, malditas, adoradas, legalizadas, aceitas, proibidas e as opiniões se perdem em critérios diversos.

Certamente o que seduz, seja com qual for o estupifaciente, é seu efeito, sua reação físico-química. Uma que cause sensações de prazer, alívio ou fuga. As consequências do uso não são o “x” da  questão, afinal o que importa mesmo é o delírio de um momento em que corpo e mente anestesiados e extasiados diante da realidade, da vida que segue, desfrutam o torpor como elixir curativo. Não há motivo, nem hora, não importa a causa, somente o efeito. Um convite para entrar no céu ou, para muitos, no inferno.

Enfim, teses e mais teses já foram escritas, muitas teorias e estudos transbordam pelo mundo a fora feito um interminável e profundo oceano de velhas novidades, um blá blá blá ora científico, noutro falácia do populacho que se fundem num grande desencontro de interesses. Aprendemos a conviver com isso em nossa sociedade desde que nos conhecemos por gente. Seja com o ébrio que incomoda nos botecos e depois em casa; com o craqueiro que pede na sinaleira moedas para o suicídio e arrasta a família para depressão; também com o maconheiro que ri de si mesmo fazendo graça de suas tolices; ou ainda com o alucinado que entope as narinas de pó e vira escravo das suas próprias mentiras, também com o fumante consciente da sua auto-destruição; além, é claro, de um rol de outros  quimico e psicodependetes com suas particularidades inesgotáveis. Pura repetição como a de um disco de vinil que a agulha ululante repete o mesmo ruído num eterno e irritante retorno à mesmice. Já conhecemos esta história. Seja em casa ou no vizinho. Somos parte desse conto sem fim. Mesmos “causos” contados com atores distintos, em locais distantes, em tempos remotos ou recentes. Uma repetição de capítulos com finais nem sempre felizes, nem sempre tristes, nem sempre finais. E agora? Qual será a próxima novidade enebriante a chegar ao mercado? Silêncio aflito  pulsa nos corações dos pais calejados, das famílias destruídas, dos adictos ansiosos pela pseudo-novidade da próxima dose.

Sem que percebessemos, um inocente utilitário tecnológico transforma uma nova geração em autômatos: copia e cola, ctrl C, ctrl V.

Todos provamos sem questioná-la. Diariamente, uma overdose do novo entorpecente acomete as chamadas gerações X, Y, Z, inclusive a Baby Bomer. Sem exitar e sem perceber consumimos levianamente. Tão boa, tão inofensiva a ponto de incentivarmos o uso às nossas crianças. Socialmente aceita, a primeira impressão é: quanto mais alta a classe social, maior o número de dependentes. Entretanto,  isso é visivelmente desmitificado quando saimos as ruas e assistimos todos conectados desmedidamente.

Incrivelmente viciante, curiosamente sua abstinência é sintomática. Basta-nos a ausência por alguns minutos e logo somos tomados por uma sensação de vazio, nudez e impotência: Onde está?! Acabando a bateria?! Fora da área, e agora?! Certamente, nesse exato momento, enquanto corremos os olhos neste texto, carregamos a dose diária na tomada, na bolsa ou no bolso. Muito próximo de nós é o lugar mais distante para não sentirmos sua falta. Ao lado da cama, na mesa das refeições, ou mesmo nas mãos, tem que estar ali ao alcance dos olhos e ouvidos. Usamos em qualquer lugar, a qualquer hora, as vezes sem motivos justificáveis. Usamos por que precisamos usar, porque todos usam e fora dessa onda não há como ficar. Porque nos ajuda e nos alivia na correria do cotidiano. Porque na ponta dos dedos está a solução enebriante que anestesia, que liberta e nos dá poder. Porque nos aproxima virtualmente de tudo e de todos. Porque nos potencializa, eleva o status e a velocidade das ações. Porque nos torna virtuosos e informados. Porque não necessita de grande esforço para nos convencermos de que há mais motivos para usá-la do que não.

Simplesmente consumimos sem questionar qual a medida ideal. Sempre tomados pela falsa sensação de necessitar mais, como qualquer outra droga e seus níveis distintos de tolerância. Hoje, somos dependentes, entorpecidos pela droga socialmente dissiminada, o smartphone.

Não há roda de amigos sem que, no mínimo, um dos indivíduos, totalmente alheio a conversa, leia, fale ou digite no “screen touch”. Não há jantar, almoço ou café em família sem estar acompanhado de doses solitárias da atenção eletrônica digital. Não há relação social que este aparelho, de alguma forma, não interfira ou faça parte do contexto comunicativo. Não há relacionamento que não sofra interferência ou mesmo se abale por motivos patéticos expostos nas redes sociais onde os egos afloram, os elogios chegam inesperados e os segredos são demasiadamente humanos. Não há fofoca que não se dissipe na velocidade da luz, nem tagarelice de autoria duvidosa facilmente adotada como pesamento de auto-ajuda. Falsa sensação de estarmos livres da ignorância dos fatos, das notícias. Pseudo sensação de potência de informação, de aderência ao saber. Usamos a toda hora, inclusive na intimidade do banheiro. O limite do bom senso se perde dia a dia e a dependência aumenta exponencialmente. Praticamente guia nossas ações, controla nossos pensamentos, nossa massa corpórea, nossos passos, a distância, a conta bancária, o lazer, as direções, etc. Induz nossas sensações, nos pseudo-socializa e nos aproxima da solidão silenciosa de um teclado com milhares de signos e palavras “plurinterpretados”.

Então, deixar de usar, é esse o caminho? Obviamente não. Não podemos esquecer que somos efêmeros demais nessa vida. Que buscamos conscientemente mais conforto e por isso nos permitimos algum tipo de prazer, alguma droga lícita ou ilícita que faça-nos sentir mais humanos na robotizada rotina humana moderna. Uma rotina que nos faz esquecer de quem realmente somos. Desejamos recursos que nos permitam ir além das nossas capacidades. Analogamente, é tão salutar e não condenável como aquela taça de vinho relaxante e prazerosa que não se permite ao excesso. Não há dúvida que cada um tenha sua justa medida de prazer e conforto. Seria hipocrisia dizer: isso esta errado, isso não presta. Nada disso! Longe da ignorância emocional extremada, da alarmante, sensacionalista e costumeira gritaria que os meios de comunicação insistem divulgar. Não é um apelo moral ou ético na tentativa inútil de apontar o que é certo ou errado. É dificílimo chegarmos a um denominador comum mergulhados em culturas e comportamentos peculiares que constrõem a história da humanidade. A pretenção aqui não é colocar a tecnologia no banco dos réus, mas repensar seu emprego descontrolado e prejudicial.

Antes de um julgamento, é um alerta, uma luz amarela de atenção, uma constatação bastante óbvia que todos, de alguma forma, estão cientes e ao mesmo tempo não conscientes do excesso. A questão que vem a superfície é: Até onde? Quando há excesso? Quando somos adictos e não percebemos? Admitimos nossas fraquezas para os excessos? Somos emocionalmente inteligentes para distinguir o que é importante e o que é banalidade? Creio não haver resposta precisa para essas questões. Não enquanto, como no dito popular, “a água não bater na bunda”. Entretanto, é nítido que mergulhamos fundo a cada hora que passa nesse entorpecente tecnológico. Passou a administrar nossas horas, nossas vidas nos tornando ansiosos dependentes. Sim, eu uso, e muito. Admitir isso me parecer ser racionalmente o primeiro passo para a mudança. Por isso, hoje, e por hoje, usei meu smartphone apenas como telefone.