A previsibilidade não garante a certeza.

Podemos usar, em muitas circunstâncias, pretextos para predizer o futuro. Mas o fato inequívoco é que o futuro está fora do nosso alcance. Então por que formulamos pré-concepções para estabelecer possíveis crenças baseadas em possibilidades?

Sim, podemos escolher semear na areia do deserto contando com a probabilidade da chuva num momento próximo, embora aquelas areias a muito não recebam uma gota de chuva. Assim como no exemplo anterior, da mesma forma podemos fazer inúmeras escolhas baseadas em probabilidades. Podemos, inclusive, pré-dizer que nossas escolhas são baseadas em experiências passadas e por isso as chances de uma previsão acertada, relativa a recorrência, é oriunda da dedução, portanto, reforçando as probabilidades acertivas.

Entretanto, todas as certezas humanas são subjetivas e habitam somente o campo das ideias dos homens. Dados pré-formatados, sugerem o que nos parece óbvio ou inteligível, mas estão sempre sujeitos ao equívoco. Ora, o que isso quer dizer então? Que não dispomos de mecanismos capazes de prever os acontecimentos baseados na experiência? Ou ainda que achismos não nos permitem previsões? Que não há como precisarmos com grau de objetividade cirúrgico sobre o que ainda está por vir?

Para nossa sorte e azar, somos desprovidos de tal aparelhagem de precisão que nos remete ao tempo futuro providos de certezas. Ainda mais quando nos referimos ao comportamento humano. Nessa área o “talvez” se fortalece na expressão da possibilidade. Dizer que se agirmos assim ou assado resultará nisso ou naquilo, é ato estatístico, porém não absoluto. Pré-dizer a respeito dos comportamentos humanos beira o possível, mas não a precisão. Acumalamos no decorrer da vida, repetições de atitudes, de ações, que nos ensinam a praticar a dedução sobre o amanhã. Bastando-nos para esse aprendizado gatilhos cíclicos. Embora a observação nos conduza ao aprendizado sobre comportamentos, a previsibilidade é sempre uma sorte lançada com maior ou menor margem para alcançar um resultado esperado. Da mesma forma que a repetição das experiências nos leva a crer que estamos aptos a prever o ato seguinte, a próxima decisão, o comportamento esperado, também éo gatilho da mudança comportamental.

Se somos capazes de apreender com a experiência e reconhecer possíveis repetições, também podemos usar esse mesmo aprendizado para “repreender”, no sentido de censurar, as repetições e optarmos pelo diferente. E se assim o fizermos, e constantemente fazemos conscientes ou não, as reações tornam-se flexíveis e a probabilidade como pretexto para justificar as ações passadas ou presentes, as repetições, se diluem no oceano do achismo. O achismo, por sua vez, representa a incerteza, portanto, suas consequências novamente são imprecisas. O fato de existir a mutabilidade na ação presente torna a previsibilidade humana uma prática subjetiva no sentindo de pré-dizer resultados. É no campo das emoções que esta previsibilidade é ainda mais complexa e distante da certezas do homen do futuro.

Diante disso, reduzir os achismos é um caminho para que as probabilidades, embora não precisas, possam estar ao alcance dos nossas previsões. Nesta direção, a verdade e a mentira, assim como a revelação ou omissão “poderão”, e uso aqui o verbo que exprime a possibilidade, criar cenários possíveis e juízos inprecisos. Entretanto a verdade, na contramão da mentira, assim como a revelação está para a omissão, são artíficios aplicáveis no sentindo de prevenção contra achismos, inseguranças, dúvidas ou falsas ideias que a inverdade e o silêncio ampliam numa relação de juízos sobre escolhas, atitudes alheias e probabilidades.

A sinceridade é uma abertura do eu que nos mostra tais como somos, é um amor gratuito à verdade, um ato que repugna a mentira. Plena do desejo de reparar ou diminuir quaisquer defeitos, pelo simples mérito de confessá-los, a recusa da omissão é um ato de amor próprio e fortalecedor da lealdade. Há que se prefir a verdade mesmo que dolorida à omissão dissimulada e potencializadora das incertezas. Se por alguma razão nos permitimos prever uma reação alheia, então que esta venha alicerçada na exposição e na verdade. Então, na pior das hipóteses, uma consciência livre e objetiva ampliará as chances do aprendizado e apreensão do conhecimento mesmo como ferramenta imprecisa, porém ciente que as probabilidades do mal juízo serão menores que as do bom julgamento.

Relação entre o Imperativo Categórico kantiano com a temática do filme “O Jardineiro Fiel”

No texto a seguir, busco sintetizar a relação do imperativo categórico, sustentado por Immanuel Kant, com o filme dirigido por Fernando Meirelles onde a temática central é o assassinato de uma ativista que, ao mudar-se da Inglaterra para o Quênia, no continente africano, junto com o marido diplomata, desvenda e se envolve numa trama de interesses privados. Esta trama utilizava-se do estado de necessidade e da ignorância do povo daquele país para defender interesses comerciais de uma minoria. Neste drama, que expõe o problema da ética e moral naquele contexto social, buscaremos ligações com o pensamento kantiano sobre o imperativo categórico e prático.

Antes de relacionarmos os imperativos categórico e prático ao tema do filme “O Jardineiro Fiel”, é importante reavivarmos os conceitos desses imperativos. Para tanto, buscaremos apoio no Livro Didático Ética Moderna, onde temos, na interpretação de Leandro Pacheco, a ideia de que tal imperativo é “um dever agir de tal forma que a ação por mim praticada seja válida não somente para mim, mas para todos os outros indivíduos”.

O imperativo categórico, por sua vez, explicita que uma ação deve ser praticada e que tal ação, não está vinculada a nenhuma condição. O imperativo categórico é uma ordem formal que nunca está condicionada a situações ou particularidades (PACHECO E NESI, p. 201-203).

Reforçando o conceito de imperativo categórico kantiano, podemos nos valer também da síntese realizada por Bárbara Freitag que preocupou-se, primeiramente, em esclarecer os conceitos que sustentam a reflexão da ética de Kant. Segundo esta autora, eles exprimem a necessidade de agir de acordo com uma lei geral, exigindo um comportamento racional que todos devem seguir. O dever de seguir uma lei geral impõe-se racionalmente, porque na lei geral todo e qualquer ser racional reconhece a defesa da dignidade humana. A dignidade humana, representada pela lei, refere-se à dignidade de cada um e da humanidade como um todo.

O imperativo categórico kantinano constitui, pois, a condição da possibilidade de existência de uma sociedade justa, fundamentada em um contrato social que atenda aos direitos de todos e defenda a dignidade de cada homem dotado de razão, e, dessa forma, da humanidade como um todo( FREITAG, 1992).

Além da fórmula da universalidade da lei, visto no que foi exposto até aqui, temos ainda a visão de Kant baseada na humanidade como fim, ou seja, a vontade da ação deve ser vista como um dever. A ideia da vontade de todo ser racional concebida como vontade legisladora universal. Kant afirma que todo o ser racional, existe como fim em si mesmo e não apenas como meio para uso arbitrário desta ou daquela vontade. Assim, tento clarear o imperativo prático citado no enunciado desta atividade .

A vontade não está, pois, simplesmente submetida à lei, mas o está de tal maneira que possa ser também considerada legisladora ela mesma, e precisamente por isso então submetida à lei (de que ela mesma pode ser considerada como autora –
FMC, 2004, p. 62).

Agora, de posse dos conceitos de imperativo categórico e prático, conduziremos sua aplicação no tema proposto em “O Jardineiro Fiel”(2005). Assim, diante da polêmica exposta no filme, que envolvia diferentes governos (Britânico e Queniano), bem como, uma grande indústria farmacêutica, foi possível perceber que a manipulação presente em todo o decorrer da história, estava diretamente ligada a questões éticas e morais dos personagens envolvidos. Todas as ações oriundas de uma minoria que detinha o poder , distorciam as informações, omitiam o conhecimento e seus riscos e, sobrepondo quaisquer interesses coletivos ou universais, faziam daquele povo uma imensa comunidade de cobaias humanas. Manipulando políticos e governantes locais, defensores da segurança civil entre outras esferas públicas e também privadas, ignoram o ideal do bem agir, do moralmente correto e do respeito a dignidade do homem. Colidem com a ideia kantiana de defender a dignidade humana como um todo. Ali, contrária ao pensamento de Kant, toda a conduta moral daqueles que utilizaram dos mais sórdidos meios para obter seus interesses satisfeitos, é rechaçada pela proposta do imperativo prático. A ativista, representada pela personagem Tessa(Rachel Weisz), percebe toda a movimentação imoral acerca do uso de seres humanos para fins de experimentação científica e diante daquele cenário, coloca a dignidade humana acima de tudo, inclusive da própria vida. Numa tentativa de coibir tais ações faz uso do livre exame, valendo-se do recurso para a própria faculdade de pensar, julgar e querer. Mesmo que, supostamente frustrada a tentativa desta ativista, em especial pelo fato de ter sido brutalmente assassinada e seus relatórios desaparecidos, transfere o dilema para o marido, Justie(Ralph Fiennes), que naquele momento representava os interesses do governo Inglês no Quênia.

Assim, ao colocar a razão acima dos sentimentos, busca na sua individualidade o pensar, julgar e agir conscientemente favorável a verdade revelada. Fazendo uso do mesmo conceito moral, opta por defender como fim último a dignidade humana, o progresso moral de cada homem e da humanidade como um todo onde a causa maior, a razão de ser, é a liberdade dos homens. A ética kantiana é a ética do dever, autocoerção da razão, que concilia dever e liberdade. O pensamento do dever derruba a arrogância e o amor próprio, e é tido como princípio supremo de toda a moralidade.

Referências bibliográficas

– CATANEO, Marciel Evangelista – Ética Moderna: Livro didático / Marciel Evangelista Cataneo; design institucional Carmen Maria Cipriani Pandini, João Marcos de Souza Alves. – 1.ed. Rev. E atual – Palhoça, 2011

– KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. São Paulo: Martin Claret: 2004.

I Encontro de Filosofia Oriental

O EFO é o Encontro de Filosofia Oriental que acontecerá nos dia 18 e 19 de novembro, na Universidade Federal de Santa Catarina por uma iniciativa do Centro Acadêmico Livre de Filosofia (Gestão 2013-2014), que visa dar uma maior visibilidade para essa área da filosofia pouco explorada nos cursos de filosofia pelo Brasil.

http://efoufsc.wordpress.com/inscricoes-para-ouvinte/

Sobre Alegoria da Caverna de Platão e comentários reflexivos de Saramago

A Alegoria da Caverna de Platão, livro VII da obra A República, seguirá sempre atual em qualquer momento histórico, concretizando-se independente do tempo, bastando apenas que o homem esteja presente nele. Esse movimento de ir e vir para fora e para dentro da caverna, essa alegoria de sentido simbólico-imagético, é, na verdade, comum ao ser humano em toda sua história. A metáfora mitológica criada por Platão, que trás para a superfície a árdua e irônica caminhada na direção da sabedoria (sophia), cruza a linha do tempo, a história, e será atual em todo momento humano. Nas palavras de Saramago, que certamente não foi autor desse pensamento, senão mais um locutor da dúvida, na sua eloquência, afirma que “a maioria das coisas em nossas vidas acontecem sem muito sentido. Então somos todos avidos pelo significado”, traduzindo assim a natural ânsia do “eu” kierkegaardiano (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Desespero_Humano) sempre desesperado e ávido em cruzar a suposta e imaginária linha limítrofe do conhecimento para além do tempo que lhe é permitido existir enquanto indivíduo. Não cabe avaliar aqui a satisfação do “eu” ou buscar respostas aos porques da existência humana, mas apontar para a reflexão exclusiva sobre essa ânsia da busca sem fim pelo fio condutor do significado de tudo que é pertinente ao homem independente do seu momento histórico-evolutivo.

Se por um lado, segundo Saramago, estamos cegos para a sensibilidade e para a razão e nos tornamos egoistas e agressivos ao sairmos da caverna, por outro,  acabariamos insatisfeitos e inseguros se permanecessemos inertes na sombra do desconhecimento, acorrentados na caverna de Platão. Além do mais, foi na maturidade, aos setenta e sete anos, na proximidade do seu próprio fim, como relata o escritor no vídeo “Caverna de Platão e as imagens”, que Saramago se deu conta das necessidades simplistas e sem aparente explicação de assistir o crescimento, o renascimento, a evolução das plantas em seu quintal. Que lhe gerou uma consciente satisfação (razão) e um desejo inconsciente (emoção) de permanência no amanhã. A sintética certeza de que a vida cessará e todo conhecimento, toda experiência, é apenas uma ponte formada de símbolos e imagens, com objetivo ainda impreciso, a qual chamamos “conhecimento” e, que esse mesmo saber, não garante certeza alguma de outros propósitos para além da caverna de Platão. Haverão sempre homens livres e acorrentados, haverão sempre céticos e inconformados e, esse existir, é o movimento que faz o ser humano ontologicamente carente de si mesmo.

 

O existir

Papo filosófico. Para os que conhecem cabe a complementação, para aqueles menos familiarizados com o termo ai vai uma super síntese do significado de Ontologia. Portanto, Ontologia entenda-se o estudo do ser enquanto ser, suas categorias, princípios e essência. Querendo saber mais sobre o assunto posso indicar algumas fontes interessantes, não se intimide em perguntar, pois não tenho a menor vergonha de dizer que pouco sei, embora muito leia.

Trouxe para meu blog este assunto fecundo pois a poucos dias foi debatido  durante uma avaliação relativa a matéria Ontologia I do curso de Filosofia da UNISUL, cadeira da qual participo. Diante do tema que muito me interessa e larga é sua complexidade, decidi publicar uma síntese das minhas ideias para compartilhar com os demais interessados na matéria e, quiçá, somarmos conhecimento neste canto amador do saber ainda semente. Alerto aos leitores que minha opinião, embora amadora, resulta de um velho rotineiro interesse em diversas obras de filósofos e cientistas consagrados como: Descartes, Sartre, S. Pinker, D. Goleman, A. R. Dámásio, R. D. Prechet entre outros de grande relavância. Espero não desapontar ninguém e,  se deste ponto a polêmica emergir, parte da minha intensão de somar estará realizada. Parafraseando Descartes, então, por hora penso e se penso, logo existo.

Formulo aqui a ideia de que em geral não podemos fazer julgamentos concretos com base apenas na lógica, pois as informações que dispomos geralmente são incompletas ou ambíguas. Sabe-se que os sentidos e a percepção enquanto capacidades humanas afloram respostas aos acontecimentos externos e internos e, dessa forma, nos mantém informados sobre qualquer ameaça à integridade do ser. Através do sentir somos estimulados a moldar nosso comportamento para obtermos o que desejamos, bem como, evitar o que tememos. Reconhecer a relevância dos sentidos no processo de compreensão do existir não exclui aqui, de maneira alguma, a lógica como forma de raciocínio para estabelecer uma ponte cognitiva entre razão e emoção num organismo ou num indivíduo. Pensadores como Aristóteles não limitaram o olhar para o conjunto de indivíduos que refaziam e recriavam constantemente comportamentos relativos as capacidades primárias do existir e sua real necessidade de permanência e continuidade. Conflitaram razão e emoção num campo macro e micro-social. Na maior parte do tempo, temos a sensação plena de que não morreremos num próximo instante. Mas todos morreremos um dia, e todo existir, por assim dizer, corre o risco de abrir mão do desfrute de algo ao postergar os sentidos dizia Pinker com sabedoria. Donald Campbell1, por sua vez, fez eco à milhares de sábios quando resumiu o resultado da sua pesquisa sobre a busca da felicidade. Segundo ele, “a busca da felicidade é uma receita para uma vida infeliz”2.  Seja como for, o tempo revigora a cada dia o conhecimento ontológico e para o deleite dos homens que questionam a existência, que não se contentam com pontos finais, a imprecisão assume de forma inquietante em nós, homens do saber, o desejo de plenitude e infinitude.

1Pinker, Steve, 1954 – Como a mente funciona – São Paulo: Cia das Letras, 1998. 1. Evolução Humana 2. Neurociência cognitiva 3. Neuropsicologia 4. Psicologia 5.Seleção Naturas.

2Pinker, Steve, 1954 – Comoa mente funciona – São Paulo: Cia das Letras, 1998 – Cap. Desvairados – O Moinho da Felicidade, P. 414