Divã

Meu divã é minha imaginação
Um aglomerado de histórias infantis
Um baú de recordações que alimenta o presente
Com tudo que foi bom
Com tudo que foi ruim
Com tudo que foi e não volta mais

Meu divã são as palavras que escrevo
Apresentam-me a mim mesmo
São todos os ditos poéticos e descritos arquétipos da minh’alma
De uma mente que não se explica
Ou uma alegria que se sente
Até da tristeza que não compreendo

Meu macio divã são os pensamentos por onde flutuo
São passantes nuvens e sonhos amórficos
Memórias de um corpo indivíduo
Visões translúcidas dos meus frágeis vidros verdes
Que memorizam e perdem todas as imagens guardadas
Misturam datas, nomes, cores e temores

Meu solitário divã sem macias almofadas
Não representa sentimentos teatrais
Nem exprime conforto em razões pontuais
Serve-me apenas como trampolim emocional
Como base racional

Divã de papel e tinta
Multiformas desenhadas do que sinto
Escancara imagens fechadas de mim mesmo
Transcreve-me num eu que são muitos distintos
Todos, ao mesmo tempo, numa só essência

Meu divã, meu confiossionário, meu diário
Meu ontem, meu hoje e onde estarei amanhã
Sempre dentro de mim
As vezes fora de si
Outras sem saber onde ir
E no final de cada linha, volto para o embaraço poético da vida
Para um conto real quase sempre sem rima
Retorno a desenhar estrofes de estranhas entranhas
De um eventual analista escritor
Um de signo aventureiro
Suposto haríolo do sentir

Acabo sempre neste divã de letras, papel e tinta
Termino aqui neste assento literal onde sempre começo
N’algum lugar onde desnudo fantasias
E reescrevo-me quantas vezes impreciso for
Literalmente, todos os dias

20150122_122329

Donostia (San Sebastian), País Basco

(batschauer)

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