“emojilacionamento”

Incrível como seu silêncio ecoa em mim
Como sua inércia me movimenta

Um bocado de nada para uma punhado de dúvidas
Digitais escorregam na tela aproximando uma distância que aumenta entre nós

Somos repetições de outros erros sociais
Modelos ultrapassados de si mesmos, ensimesmando-se em rede

Nada vem e tudo se vai em teclas virtuais
Feito água abaixo como som de privada
Leva tudo que não serviu e deixa tudo com a sensação do vazio

Minhas lentes se fecham e olham para dentro
Buscando razão que alimente “tresloucada” emoção
Não uma suposta, representada por emojis
Mas real relação do sentir

Na tela, não vejo nada
Silenciosas “carinhas” como respostas
Colorida inércia que carece de movimento
Inerte imagem em que você se movimenta

Quiçá um “search” no google traga-me sua foto de criança
Talvez amanhã venha algo diferente, me diz a esperança
Talvez não, quando você se repete nos idiogramas

Nesse faz de conta que não entendo, brincamos de esconde-esconde de nós mesmos
Achando graça de qualquer sorriso amarelo que sobra
Curtindo “likes” e elogios alheios enquanto o tempo nos torna passado

Inseguro diante desse seu mundo virtual
Não sou moderno, nem anormal
Ainda visto-me com os mesmos Jeans encardidos, usados e puídos
Daquela boa e velha geração do sentir
Que “curtia a vida” ao invés de apenas botões de “curtir”.

Assim, paciente aguardo
Na sombra de uma frase qualquer
Voltares deste emojimundo d’onde fostes
Para ler e ouvir palavras suas
Da mulher como conheci

 

vintage

 

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Livresco talvez

antes que o sol acorde
aporto no café de todos os dias
ancorado no alvoroço apressado de um entra e sai
repito-me no mesmo canto
na xícara com café, leite e letargia

toda manhã

a percorrer páginas
desvendar mundos alheios
todos distintos, alguns parecidos
outros distantes, há muito esquecidos

no meu mundo

alarido de gente passante
vai-se embora desapercebido
foge do alcance quanto mais distante
feito eco que sussurra no ouvido

ignoro

eis-me ali novamente
como outras e outras e outras vezes
tantas em páginas de mil histórias lidas
mergulhando em múltiplas vidas
de desiguais interesses

o tempo que move o dia

anuncia o atraso de sempre
e num suposto último parágrafo
alerta a hora da partida
onde deixo-me na caneta que marca
sufocada entre as páginas expremidas
feito tinta paciente a aguardar

a dose diária de realidade e fantasia

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(batschauer)

 

 

 

 

 

Tecnodependência ou apenas excesso?

Nenhuma novidade que o ser humano tem grande fascínio por substâncias que entorpecem seus sentidos. Uma satisfação que transforma-se em hábito. Noutras vezes, dependência para uma vida.

Ninguém está imune, não há vacina, nem tratamento preventivo para estas tentações que nos são possíveis e relativamente fáceis de se obter. Das mais populares as mais desconhecidas, muitas formas e tipos emergem diariamente em nossas vidas. Poder-se-ia listar um sem fim de entorpecentes, de substâncias naturais ou sintéticas que nos provocam alterações físicas e psíquicas e consequentemente, em boa parcela dos mortais, dependência química e psicológica. Algumas nocivas, porém socialmente aceitas, como cigarros e bebidas alcoólicas; outras corrosivas como “crack, heroína, metanfetaminas e por aí a fora. Todas, rotuladas, malditas, adoradas, legalizadas, aceitas, proibidas e as opiniões se perdem em critérios diversos.

Certamente o que seduz, seja com qual for o estupifaciente, é seu efeito, sua reação físico-química. Uma que cause sensações de prazer, alívio ou fuga. As consequências do uso não são o “x” da  questão, afinal o que importa mesmo é o delírio de um momento em que corpo e mente anestesiados e extasiados diante da realidade, da vida que segue, desfrutam o torpor como elixir curativo. Não há motivo, nem hora, não importa a causa, somente o efeito. Um convite para entrar no céu ou, para muitos, no inferno.

Enfim, teses e mais teses já foram escritas, muitas teorias e estudos transbordam pelo mundo a fora feito um interminável e profundo oceano de velhas novidades, um blá blá blá ora científico, noutro falácia do populacho que se fundem num grande desencontro de interesses. Aprendemos a conviver com isso em nossa sociedade desde que nos conhecemos por gente. Seja com o ébrio que incomoda nos botecos e depois em casa; com o craqueiro que pede na sinaleira moedas para o suicídio e arrasta a família para depressão; também com o maconheiro que ri de si mesmo fazendo graça de suas tolices; ou ainda com o alucinado que entope as narinas de pó e vira escravo das suas próprias mentiras, também com o fumante consciente da sua auto-destruição; além, é claro, de um rol de outros  quimico e psicodependetes com suas particularidades inesgotáveis. Pura repetição como a de um disco de vinil que a agulha ululante repete o mesmo ruído num eterno e irritante retorno à mesmice. Já conhecemos esta história. Seja em casa ou no vizinho. Somos parte desse conto sem fim. Mesmos “causos” contados com atores distintos, em locais distantes, em tempos remotos ou recentes. Uma repetição de capítulos com finais nem sempre felizes, nem sempre tristes, nem sempre finais. E agora? Qual será a próxima novidade enebriante a chegar ao mercado? Silêncio aflito  pulsa nos corações dos pais calejados, das famílias destruídas, dos adictos ansiosos pela pseudo-novidade da próxima dose.

Sem que percebessemos, um inocente utilitário tecnológico transforma uma nova geração em autômatos: copia e cola, ctrl C, ctrl V.

Todos provamos sem questioná-la. Diariamente, uma overdose do novo entorpecente acomete as chamadas gerações X, Y, Z, inclusive a Baby Bomer. Sem exitar e sem perceber consumimos levianamente. Tão boa, tão inofensiva a ponto de incentivarmos o uso às nossas crianças. Socialmente aceita, a primeira impressão é: quanto mais alta a classe social, maior o número de dependentes. Entretanto,  isso é visivelmente desmitificado quando saimos as ruas e assistimos todos conectados desmedidamente.

Incrivelmente viciante, curiosamente sua abstinência é sintomática. Basta-nos a ausência por alguns minutos e logo somos tomados por uma sensação de vazio, nudez e impotência: Onde está?! Acabando a bateria?! Fora da área, e agora?! Certamente, nesse exato momento, enquanto corremos os olhos neste texto, carregamos a dose diária na tomada, na bolsa ou no bolso. Muito próximo de nós é o lugar mais distante para não sentirmos sua falta. Ao lado da cama, na mesa das refeições, ou mesmo nas mãos, tem que estar ali ao alcance dos olhos e ouvidos. Usamos em qualquer lugar, a qualquer hora, as vezes sem motivos justificáveis. Usamos por que precisamos usar, porque todos usam e fora dessa onda não há como ficar. Porque nos ajuda e nos alivia na correria do cotidiano. Porque na ponta dos dedos está a solução enebriante que anestesia, que liberta e nos dá poder. Porque nos aproxima virtualmente de tudo e de todos. Porque nos potencializa, eleva o status e a velocidade das ações. Porque nos torna virtuosos e informados. Porque não necessita de grande esforço para nos convencermos de que há mais motivos para usá-la do que não.

Simplesmente consumimos sem questionar qual a medida ideal. Sempre tomados pela falsa sensação de necessitar mais, como qualquer outra droga e seus níveis distintos de tolerância. Hoje, somos dependentes, entorpecidos pela droga socialmente dissiminada, o smartphone.

Não há roda de amigos sem que, no mínimo, um dos indivíduos, totalmente alheio a conversa, leia, fale ou digite no “screen touch”. Não há jantar, almoço ou café em família sem estar acompanhado de doses solitárias da atenção eletrônica digital. Não há relação social que este aparelho, de alguma forma, não interfira ou faça parte do contexto comunicativo. Não há relacionamento que não sofra interferência ou mesmo se abale por motivos patéticos expostos nas redes sociais onde os egos afloram, os elogios chegam inesperados e os segredos são demasiadamente humanos. Não há fofoca que não se dissipe na velocidade da luz, nem tagarelice de autoria duvidosa facilmente adotada como pesamento de auto-ajuda. Falsa sensação de estarmos livres da ignorância dos fatos, das notícias. Pseudo sensação de potência de informação, de aderência ao saber. Usamos a toda hora, inclusive na intimidade do banheiro. O limite do bom senso se perde dia a dia e a dependência aumenta exponencialmente. Praticamente guia nossas ações, controla nossos pensamentos, nossa massa corpórea, nossos passos, a distância, a conta bancária, o lazer, as direções, etc. Induz nossas sensações, nos pseudo-socializa e nos aproxima da solidão silenciosa de um teclado com milhares de signos e palavras “plurinterpretados”.

Então, deixar de usar, é esse o caminho? Obviamente não. Não podemos esquecer que somos efêmeros demais nessa vida. Que buscamos conscientemente mais conforto e por isso nos permitimos algum tipo de prazer, alguma droga lícita ou ilícita que faça-nos sentir mais humanos na robotizada rotina humana moderna. Uma rotina que nos faz esquecer de quem realmente somos. Desejamos recursos que nos permitam ir além das nossas capacidades. Analogamente, é tão salutar e não condenável como aquela taça de vinho relaxante e prazerosa que não se permite ao excesso. Não há dúvida que cada um tenha sua justa medida de prazer e conforto. Seria hipocrisia dizer: isso esta errado, isso não presta. Nada disso! Longe da ignorância emocional extremada, da alarmante, sensacionalista e costumeira gritaria que os meios de comunicação insistem divulgar. Não é um apelo moral ou ético na tentativa inútil de apontar o que é certo ou errado. É dificílimo chegarmos a um denominador comum mergulhados em culturas e comportamentos peculiares que constrõem a história da humanidade. A pretenção aqui não é colocar a tecnologia no banco dos réus, mas repensar seu emprego descontrolado e prejudicial.

Antes de um julgamento, é um alerta, uma luz amarela de atenção, uma constatação bastante óbvia que todos, de alguma forma, estão cientes e ao mesmo tempo não conscientes do excesso. A questão que vem a superfície é: Até onde? Quando há excesso? Quando somos adictos e não percebemos? Admitimos nossas fraquezas para os excessos? Somos emocionalmente inteligentes para distinguir o que é importante e o que é banalidade? Creio não haver resposta precisa para essas questões. Não enquanto, como no dito popular, “a água não bater na bunda”. Entretanto, é nítido que mergulhamos fundo a cada hora que passa nesse entorpecente tecnológico. Passou a administrar nossas horas, nossas vidas nos tornando ansiosos dependentes. Sim, eu uso, e muito. Admitir isso me parecer ser racionalmente o primeiro passo para a mudança. Por isso, hoje, e por hoje, usei meu smartphone apenas como telefone.

Um pouco de poesia sem filosofia

N’algum lugar em mim
em um canto que desconheço
há oca solidão
nú silêncio

Voz que cala
alegria que chora
agonia que se arrasta noite a dentro
lentas são as horas.

Olhos cerrados
espremidos e apertados
para encontrar algum sonho
que me leve
para longe dali

Som na rua
cão que ladra
sibilo do vento
o tempo não passa
e a ausência da luz segue
a me açoitar

Não encontro descanso
travesseiro de pedra
nem de um lado
nem do outro
imaginariamente assisto um filme sem fim
balbúrdia no pensamento
confusa razão
tolo sentimento

Um sol
chave do horizontal calabouço
para ressuscitar esse arcabouço desfigurado
e levá-lo para outro mundo de faz de conta
com suposto final feliz

Esperança que qualquer vazio a sabedoria há de preencher
enquanto a sombra de outra noite guarda segredos e lamentos
de uma solidão a dois

O que nos falta mais, saúde ou ética?

Não é novidade alguma o problema da saúde pública em nosso país. De forma bastante sintetizada, elencamos algumas falhas na máquina pública que administra a saúde dos brasileiros como: a carência de estrutura médico-hospitalar, a falta de investimentos nos profissionais da saúde, o descaso do governo em priorizar a qualidade do atendimento, a ineficiente fiscalização, a desorganização, entre tantas outras realidades que se apresentam nesta área. Porém, há enraizada doença já diagnosticada e que se alastra viralmente nos setores públicos provocando os sintomas supracitados. A enfermidade na ética profissional e política.

Aparentemente, saúde pública se faz com planejamento e investimentos bem direcionados, com conhecimento especializado, com pró-atividade e modelos teórico-práticos bem sucedidos. Também nos parece óbvio que saúde pública requer dinamismo e responsabilidade, carece de paixão e compaixão, também de honestidade e disciplina. No entanto, não podemos esquecer que saúde pública não se faz apenas com organizações e cargos responsáveis por sua gestão, com profissionais capacitados e bem pagos, com estruturas adequadas e dinheiro. Saúde, impreterivelmente, tem início nas decisões dos governantes e legisladores. Nas mãos e canetas daqueles que, raramente, para não dizer, nunca, fazem uso dessa estrutura pública e sim, garantem a própria saúde nas instituições privadas e elitistas. Não experienciam a realidade dos que ficam em filas, dos que não podem pagar por planos privados, dos que não tem opção quando o momento exige uma emergência, dos desempregados e de todos os homens, mulheres e crianças que adoecem e morrem prematuramente sem sequer conseguir uma consulta. Superlotação, má vontade, negligência, imperícia, custam tão caro aos cofres públicos quanto a falta de ética e moral custa para o bolso do contribuinte. É com essa doença crônica que o dilema da saúde nesse país parece viver em constante conformação. Problema esse, que sempre acaba mal para os mesmos que se espremem nos corredores dos hospitais, nos postos de saúde ou nos comícios prometedores. Para os que dependem mais da sorte do que da administração pública para se manterem vivos nessa realidade.

Não basta investir milhões na saúde, em salários, em estruturas, em medicamentos, fármacos e recursos humanos, sem antes pensarmos num tratamento emergencial para o câncer que se alastra no poder público feito epidemia devastadora. Dizimando a ética, a moral e o bom senso num país que está adoecido pela ganância e corrupção dos seus próprios filhos.

Relação entre o Imperativo Categórico kantiano com a temática do filme “O Jardineiro Fiel”

No texto a seguir, busco sintetizar a relação do imperativo categórico, sustentado por Immanuel Kant, com o filme dirigido por Fernando Meirelles onde a temática central é o assassinato de uma ativista que, ao mudar-se da Inglaterra para o Quênia, no continente africano, junto com o marido diplomata, desvenda e se envolve numa trama de interesses privados. Esta trama utilizava-se do estado de necessidade e da ignorância do povo daquele país para defender interesses comerciais de uma minoria. Neste drama, que expõe o problema da ética e moral naquele contexto social, buscaremos ligações com o pensamento kantiano sobre o imperativo categórico e prático.

Antes de relacionarmos os imperativos categórico e prático ao tema do filme “O Jardineiro Fiel”, é importante reavivarmos os conceitos desses imperativos. Para tanto, buscaremos apoio no Livro Didático Ética Moderna, onde temos, na interpretação de Leandro Pacheco, a ideia de que tal imperativo é “um dever agir de tal forma que a ação por mim praticada seja válida não somente para mim, mas para todos os outros indivíduos”.

O imperativo categórico, por sua vez, explicita que uma ação deve ser praticada e que tal ação, não está vinculada a nenhuma condição. O imperativo categórico é uma ordem formal que nunca está condicionada a situações ou particularidades (PACHECO E NESI, p. 201-203).

Reforçando o conceito de imperativo categórico kantiano, podemos nos valer também da síntese realizada por Bárbara Freitag que preocupou-se, primeiramente, em esclarecer os conceitos que sustentam a reflexão da ética de Kant. Segundo esta autora, eles exprimem a necessidade de agir de acordo com uma lei geral, exigindo um comportamento racional que todos devem seguir. O dever de seguir uma lei geral impõe-se racionalmente, porque na lei geral todo e qualquer ser racional reconhece a defesa da dignidade humana. A dignidade humana, representada pela lei, refere-se à dignidade de cada um e da humanidade como um todo.

O imperativo categórico kantinano constitui, pois, a condição da possibilidade de existência de uma sociedade justa, fundamentada em um contrato social que atenda aos direitos de todos e defenda a dignidade de cada homem dotado de razão, e, dessa forma, da humanidade como um todo( FREITAG, 1992).

Além da fórmula da universalidade da lei, visto no que foi exposto até aqui, temos ainda a visão de Kant baseada na humanidade como fim, ou seja, a vontade da ação deve ser vista como um dever. A ideia da vontade de todo ser racional concebida como vontade legisladora universal. Kant afirma que todo o ser racional, existe como fim em si mesmo e não apenas como meio para uso arbitrário desta ou daquela vontade. Assim, tento clarear o imperativo prático citado no enunciado desta atividade .

A vontade não está, pois, simplesmente submetida à lei, mas o está de tal maneira que possa ser também considerada legisladora ela mesma, e precisamente por isso então submetida à lei (de que ela mesma pode ser considerada como autora –
FMC, 2004, p. 62).

Agora, de posse dos conceitos de imperativo categórico e prático, conduziremos sua aplicação no tema proposto em “O Jardineiro Fiel”(2005). Assim, diante da polêmica exposta no filme, que envolvia diferentes governos (Britânico e Queniano), bem como, uma grande indústria farmacêutica, foi possível perceber que a manipulação presente em todo o decorrer da história, estava diretamente ligada a questões éticas e morais dos personagens envolvidos. Todas as ações oriundas de uma minoria que detinha o poder , distorciam as informações, omitiam o conhecimento e seus riscos e, sobrepondo quaisquer interesses coletivos ou universais, faziam daquele povo uma imensa comunidade de cobaias humanas. Manipulando políticos e governantes locais, defensores da segurança civil entre outras esferas públicas e também privadas, ignoram o ideal do bem agir, do moralmente correto e do respeito a dignidade do homem. Colidem com a ideia kantiana de defender a dignidade humana como um todo. Ali, contrária ao pensamento de Kant, toda a conduta moral daqueles que utilizaram dos mais sórdidos meios para obter seus interesses satisfeitos, é rechaçada pela proposta do imperativo prático. A ativista, representada pela personagem Tessa(Rachel Weisz), percebe toda a movimentação imoral acerca do uso de seres humanos para fins de experimentação científica e diante daquele cenário, coloca a dignidade humana acima de tudo, inclusive da própria vida. Numa tentativa de coibir tais ações faz uso do livre exame, valendo-se do recurso para a própria faculdade de pensar, julgar e querer. Mesmo que, supostamente frustrada a tentativa desta ativista, em especial pelo fato de ter sido brutalmente assassinada e seus relatórios desaparecidos, transfere o dilema para o marido, Justie(Ralph Fiennes), que naquele momento representava os interesses do governo Inglês no Quênia.

Assim, ao colocar a razão acima dos sentimentos, busca na sua individualidade o pensar, julgar e agir conscientemente favorável a verdade revelada. Fazendo uso do mesmo conceito moral, opta por defender como fim último a dignidade humana, o progresso moral de cada homem e da humanidade como um todo onde a causa maior, a razão de ser, é a liberdade dos homens. A ética kantiana é a ética do dever, autocoerção da razão, que concilia dever e liberdade. O pensamento do dever derruba a arrogância e o amor próprio, e é tido como princípio supremo de toda a moralidade.

Referências bibliográficas

– CATANEO, Marciel Evangelista – Ética Moderna: Livro didático / Marciel Evangelista Cataneo; design institucional Carmen Maria Cipriani Pandini, João Marcos de Souza Alves. – 1.ed. Rev. E atual – Palhoça, 2011

– KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. São Paulo: Martin Claret: 2004.

Natureza, segundo Francis Bacon, a fonte do saber.

      No presente texto abarcarei os primeiros passos da produção e formulação científica que tiveram como relevante marco histórico a produção literária e filosófica de Francis Bacon, ainda num período onde predominavam os pensamentos escolásticos onde, a sombra da metafísica especulativa e dos grandes sistemas teóricos, a natureza não era posta a prova, distante da experimentação, dos sentidos e de um método que objetivasse mais do que um saber religioso e suas verdades finais. Aqui, procurarei sintetizar a importância, a influência e a contribuição deste filósofo bretão que apostou nos seus sentidos, na observação prática e numa nova metodologia que mudariam o rumo da história e da educação do homem moderno.

     É importante salientar que durante o século XVI tanto a Inglaterra quanto a França ascendiam economicamente através de uma intensa atividade comercial, a classe burguesa, fortalecida naquele momento, tornava-se politicamente influente, a coroa cedia espaço ao regime parlamentarista que, por sua vez, se fortalecia e gradativamente reduzia a força da Igreja e sua influência nos assuntos do Estado. Por fim, esses fatos culminariam num dos fatores decisivos para a revolução industrial e consequentemente abriram uma nova era que revelava o empirismo clássico e seus principais nomes.

    Esta filosofia empirista revelada estava diretamente ligada a formação da Royal Society of London for Improvement of Natural Knowlegde (Sociedade Real de Londres para o Progresso do Conhecimento Natural), patrocinada pelos ricos comerciantes que, por razões obvias, tinham interesse nesse conhecimento. Das navegações as linguagens intercontinentais a ciência experimental ganhava corpo e interagia mais e mais com a filosofia (MARCONDES, 2010, p. 184)

      Nesse contexto revelaram-se na Inglaterra grandes nomes da ciência e filosofia como: Robert Boyle, Robert Hooke, Isaac Newton, John Locke, Thomas Hobbes, David Hume, paralelamente na França destacavam-se Pierre Gassendi, Auguste Comte, Descartes e poder-se-ia citar tantos outros pesquisadores e filósofos igualmente importantes.

     Aqui, destaco o inglês Francis Bacon, certamente a mola propulsora do pensamento moderno, dando o golpe final na ciência teórica e especulativa clássica ao rejeitar definitivamente o método dedutivo e a escolástica. Bacon, defendendo o método experimental, valorizando uma metodologia científica, produziu a obra Novum Organum que notoriamente formalizou o marco do cientificismo indutivo.

   Procuramos cercar nossas reflexões dos maiores cuidados, não apenas para que fossem verdadeiras, mas também para que não se apresentassem de forma incômoda e árida ao espírito dos homens, usualmente tão atulhado de múltiplas formas de fantasia. (FRANCIS BACON, 1620)

     Não distante, e nem menos importante, outra publicação baconiana veio a tona fortalecendo ainda mais seu posicionamento cientificista relativo ao conhecimento da natureza. A obra Nova Atlântida trazia em seu bojo um reino utópico e contendo talvez o primeiro modelo de instituição científica. Nas palavras de Roberto Carlos Simões Galvão em seu artigo Francis Bacon: Teoria e Método e Construções para a Educação evidenciam a influência desta obra na educação vindoura.

Em A Nova Atlântida o autor antecipou muito do que as universidades atuais e seus pesquisadores vêm fazendo, e muito do que se encontra ainda como aspirações no campo científico. (GALVÃO, 2007, p. 39)

     Diante do exposto, mesmo que sinteticamente, podemos concluir que as intenções baconianas de formar um método experimental eficaz e longe de ser conclusivo propõem um modelo capaz de suplantar o caráter religioso e metafísico da educação medieval e gradualmente os substituí por um sistema concreto e até então, desconhecido. “A educação como ciência, representava agora um meio em busca de um fim, qual seja, o domínio do homem sobre a natureza”. (GALVÃO, 2007, p. 41)

      Complementarmente, segundo Danilo Marcondes em Iniciação à História da Filosofia, para Bacon, o conhecimento se desenvolvia na medida em que o método correto era adotado e tinha a experiência como guia. Nessa mesma linha, reafirmando e concluindo, a importância do conhecimento sobre a natureza, seus fenômenos e derivações, representavam a modernidade, uma nova fase nascida em meio ao empirismo da época. E, em defesa dessa modernidade, de um modelo de ciência ativa, prática e aplicada, de um pensamento crítico que superasse as superstições e preconceitos, só assim seria permitido ao homem o progresso e aperfeiçoamento da sua condição (MARCONDES, 2010 p. 184). 

Honestidade na fila do desemprego.

Num dilema moral, a honestidade, como tudo que do homem provém, facilmente relativisada, ou até mesmo desprovida de entendimento diante do olhar cético, perdeu, se é que de fato algum dia possuiu, um sentido reto. Nos dicionários encontramos esta palavra significando qualidade daquele que é puro, casto, honrado, virtuoso, razoável, justo, etc. Conceitos morais definidos pelo homem e, para ele próprio, qualificador dos seus atos. Por esse prisma, podemos dizer que um homem honesto equivale a uma pessoa que atende, respeita e pratica os princípios morais naturais ou adquiridos no decorrer da sua existência. Moral essa que herdamos de outras gerações, num saber antropológico e resultado da explícita necessidade de sobreviver, seja em bandos, seja de forma isolada mantendo um mínimo de respeito, tolerância e bom senso.

Complementarmente, quanto a “moral”, defino aqui como: conjunto de regras norteadas em costumes de boa conduta social e individual para com tudo e com todos que estão a volta e, que de alguma forma, direta ou indiretamente, tenha estreita relação com o bem estar de todos e do meio que lhe provê a vida. Pode ser, e creio nisso, que o leitor tenha opinião distinta. Porém, em resumo, no fim, todas as definições convergem para um mesmo ponto, buscando ponderar a ação e o seu resultado.

Outro dia, li uma frase curiosa que dizia: “O homem honesto é um animal em extinção”. Não sei se a autoria da frase pertence mesmo ao Lucêmio Lopes da Anunciação, mas de qualquer forma e independente de quem a criou, metaforicamente o autor verbalizou aquilo que na prática acontece desapercebidamente no cotidiano e avança desenfreadamente para a extinção. Não aponto o dedo para mim, que escrevo essas linhas, julgando-me impecávelmente honesto, mas trago a margem rasa o que a muito se perdeu da realidade e do senso comum sobre o sentido, embora subjetivo, da virtude da honestidade. Igualmente, não discorro sobre um ideal filosófico, menos ainda tento definir a honestidade num conjunto fechado e imutável de regras a serem religiosamente seguidas, porque isso poderia soar utópico. No entanto, coloco o dedo na ferida humana da conduta moral que respeita o que, notoriamente e sem margem para discussão, é bom e gera o bem e o que experimentadamente é mal e causa desconforto a qualquer homem sem distúrbios de comportamento de fundo fisiológico ou piscológico que o tornem exceção.

Na psicologia a tratativa desse tema aponta para o que os profissionais do meio chamam de “Postura de valores”. Em resumo, caracteriza-se pela tendência que as pessoas tomam no julgar determinados objetivos ou disposições de ação. Quando atribuimos valores a honestidade temos diferenciados pesos e medidas. Para alguns a honestidade é uma atitude indispensável sob qualquer circusntância, para outros é igualmente importante, no entanto, admitem que em determinadas situações uma “mentirinha”, por exemplo, é justificável, ao passo que para outras ainda a honestidade esta atrelada a tipos de comportamento subordinados a outros valores. Assim, diferentes tipos de “postura” se apresentam como características relativamente estáveis do indivíduo, dependendo porém, do ambiente externo onde se encontram.

Na teoria é o mesmo que: se educados em um meio honesto, onde a “postura de valores” dos educadores é direcionada para o bem, rechaçando o mal e valorizando o que é bom (aqui não discutiremos os pormenores da compreensão entre o bem e o mal, pois correriamos o risco de atolarmos em múltiplos conceitos e relativizações que não nos levariam , na prática, a lugar algum) tornaria todos seus sucessores pessoas com “postura de valores” boas.

Apenas para reforçar, entendamos o “bem”, aqui posto, como o ato, a ação individual ou coletiva, que dentro de uma cultura, de uma sociedade, seja reconhecida como tal. Por exemplo: Na cultura ocidental, de maneira geral, quando auxiliamos uma pessoa com dificuldade visual a cruzar uma rua estamos agindo dentro de um padrão de comportamento aceito e reconhecido pela maioria com algo bom. Num exemplo inverso, ao levarmos nossos animais de estimação para um passeio e deixarmos suas necessidades fisiológicas (fezes) na calçada, sem que recolhamos, é em consenso geral, uma ação má. A partir daí, poderiamos listar um sem fim de ações positivas e seus inversos para cada sociedade. Admitindo, nesse caso, que os bons costumes pertencem a maioria. No entanto, mesmo que de forma superficial e não filosoficamente aprofundada, a maioria de nós tem claramente a noção do bem e do mal diante das atitudes e experiências.

No entanto, se na teoria a honestidade aponta sua bússola para o norte, na prática, por sua vez, não funciona com o mesmo magnetismo. E é nesse ponto que a “postura de valores” entra em ação e faz o trem das emoções e razão humana descarrilharem. A honestidade, como um vagão desse mesmo trem, tem em seu interior uma carga de valores bastante pesada, tal qual ocorre com a carga líquida por exemplo. Está condicionada aos movimentos do trem, podendo, de acordo com o ângulo da curva e a velocidade, levar todo seu peso de uma só vez para uma das extremidades do compartimento causando o desequilíbrio dos vagões e, em função desta equação física, sair do rumo.

Obviamente não generalizarei, já que o bom senso não permite. Incluo-me na mesma parcela de pessoas que mantém uma “postura de valores” onde a honestidade é uma atitude indispensável e atrelada a tipos de comportamento ou valores que pesarão no momento da ação. Por isso, sigo inclinado para o bem, evitando qualquer escolha que possa pender para ações que causem o mal a outrem. É necessário pontuar que não podemos confundir honestidade com justiça, pois a exemplo do bem e do mal, novamente teriamos que mergulhar em conceitos mais profundos do que o necessário para a compreensão razoável sobre um comportamento honesto.

Recentemente, no país do Tio Sam, um caso típico de comportamento honesto, ganhou destaque na mídia e foi anunciado com grande espanto para o mundo, acreditem. Um motorista de táxi norte-americano encontrou no seu veículo uma sacola recheada de dinheiro (não lembro a quantia exatamente, apenas sei que era bastante dinheiro) e prontamente procurou o dono esquecido e fez a devolução. Mas por que o caso impressionou a opinião mundial e foi parar nas principais manchetes dos noticiários? Ora, a honestidade apareceu, repentinamente, da cova onde fora enterrada. Sim, espantoso, existem pessoas honestas, é o que noticiou a reportagem. Este alarde, surpreendentemente, mostra a face oculta da realidade humana. Afinal, para os que possuem valores, ou como a psicologia prefere classificar, “postura de valores” direcioanda para o bem, esse tipo de atitude não deveria causar o frisson que causou. Em regra, deveria sim, ser uma atitude, no mínimo, corriqueira entre todos nós.

Isto reforça que a opinião geral sobre nós mesmos não é das melhores e reflete o quanto estamos desacreditados do comportamento humano. Pior, a pessoa honesta virou exceção a regra. Atitudes honestas como a do motorista que devolveu o bem alheio, foi considerada por muitos como uma “possibilidade”. Dúvida do tipo ser ou não ser correta a atitude de devolver o dinheiro. No que pese esta visão, questiono se esse espanto todo não é apenas o reflexo de estarmos paulatinamente incorporando a falta de ética nas atitudes sócio-políticas que assistimos diariamente? Se, conformardos com o mal a que estamos expostos, aceitamos de forma passiva e consciente como natural tais ações desonestas dentro das nossas relações sociais e interpessoais? A honestidade não deveria nos causar espanto algum e sim o inverso, certo?

A reflexão, por ora, fica por conta de cada indivíduo sobre sua “postura de valores”. Postura que por vezes é frágil quando surge gratuitamente qualquer possibilidade de obter “vantagem” individual. Assim, como na política, por exemplo, onde tudo o que assistimos é um bando de indivíduos facínoras alimentando a desonestidade e consequentemente contaminando toda a sociedade, ao agirmos desonestamente, ampliamos esse câncer moral para todas as esferas (públicas e privadas) e sem qualquer peso e medida promovemos um rol ainda maior de hipócritas estimuladores do desemprego da honestidade.

Erga omnes

Homem! No mínimo, traga na sua bagagem a experiência de tudo que passou. Exigência de graduação no saber acima da média, embora a meia medida seja apenas uma expeculação social e resultado de uma suposta aferição, servindo o propósito de bússola dedutória da direção ideal, da quantidade razoável entre um bocado e muito. Traga consigo, no âmago, aptidão para exercer tudo o que se propõe fazer com desanuviada obstinação e destreza ímpar. Enquanto indivíduo, sempre favorável ao coletivo, alterne meios e destaque-se sem individualismos unilaterais. Valorizando a ética, os bons constumes e, cercado de princípios morais, austero, saiba conduzir a ambição pertinente ao homem com a eloquência da justa medida. Não falte a sensibilidade e compaixão em constante gatilho, prontas a serem disparadas quando o juízo demorar a chegar. E, mesmo que tardiamente, quando a razão desnudar-se, saiba conduzí-la sem imposições, compreensivamente serena e equilibrada. Cuide da boa aparência sem exageros, esquivando-se do zoilo. Seja comedido e sem demasiado exotismo, evitando qualquer fluorescente atenção. Sensato. Pensadas, ventile sabias palavras com alegoria filosófica para não ser mudo expectador, nem orador sofístico. Sobre si mesmo mais certezas do que dúvidas, mais alegrias do que tristezas e mais ação que esperança estática. A eternidade pertence ao tempo, lugar onde somos iguais passageiros, expectadores e atores a representar frente a ribalta do sol e da lua particulares dramas e versos, num livre palco chamado vida.

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Foto: Marcelo P. Batschauer

Sobre Alegoria da Caverna de Platão e comentários reflexivos de Saramago

A Alegoria da Caverna de Platão, livro VII da obra A República, seguirá sempre atual em qualquer momento histórico, concretizando-se independente do tempo, bastando apenas que o homem esteja presente nele. Esse movimento de ir e vir para fora e para dentro da caverna, essa alegoria de sentido simbólico-imagético, é, na verdade, comum ao ser humano em toda sua história. A metáfora mitológica criada por Platão, que trás para a superfície a árdua e irônica caminhada na direção da sabedoria (sophia), cruza a linha do tempo, a história, e será atual em todo momento humano. Nas palavras de Saramago, que certamente não foi autor desse pensamento, senão mais um locutor da dúvida, na sua eloquência, afirma que “a maioria das coisas em nossas vidas acontecem sem muito sentido. Então somos todos avidos pelo significado”, traduzindo assim a natural ânsia do “eu” kierkegaardiano (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Desespero_Humano) sempre desesperado e ávido em cruzar a suposta e imaginária linha limítrofe do conhecimento para além do tempo que lhe é permitido existir enquanto indivíduo. Não cabe avaliar aqui a satisfação do “eu” ou buscar respostas aos porques da existência humana, mas apontar para a reflexão exclusiva sobre essa ânsia da busca sem fim pelo fio condutor do significado de tudo que é pertinente ao homem independente do seu momento histórico-evolutivo.

Se por um lado, segundo Saramago, estamos cegos para a sensibilidade e para a razão e nos tornamos egoistas e agressivos ao sairmos da caverna, por outro,  acabariamos insatisfeitos e inseguros se permanecessemos inertes na sombra do desconhecimento, acorrentados na caverna de Platão. Além do mais, foi na maturidade, aos setenta e sete anos, na proximidade do seu próprio fim, como relata o escritor no vídeo “Caverna de Platão e as imagens”, que Saramago se deu conta das necessidades simplistas e sem aparente explicação de assistir o crescimento, o renascimento, a evolução das plantas em seu quintal. Que lhe gerou uma consciente satisfação (razão) e um desejo inconsciente (emoção) de permanência no amanhã. A sintética certeza de que a vida cessará e todo conhecimento, toda experiência, é apenas uma ponte formada de símbolos e imagens, com objetivo ainda impreciso, a qual chamamos “conhecimento” e, que esse mesmo saber, não garante certeza alguma de outros propósitos para além da caverna de Platão. Haverão sempre homens livres e acorrentados, haverão sempre céticos e inconformados e, esse existir, é o movimento que faz o ser humano ontologicamente carente de si mesmo.