Ser feliz, eis a questão.

Uma seara pantanosa falar sobre felicidade. Entendo ser ainda mais complexo tratar esse assunto como algo que procuramos ou precisamos encontrar. Temo, também, pelo cientificismo da felicidade, seus mecanismos, ações e reflexos. Certamente, seguimos evoluindo muito em relação a compreensão dos estados de felicidade. Psicologicamente e fisiologicamente falando, alcançamos muitas respostas sobre como operam tais mecanismos, quais regiões do cérebro são responsáveis por sensações de prazer, dor, alegria, tristeza, etc. Da mesma forma, quais substâncias químicas agem em nosso sistema nervoso e no restante corpóreo. Enfim, seguimos mapeamentos e apostas, analisando comportamentos e achismos, ciência e cultura popular e por aí à fora. De muitas formas, pensamos a felicidade. Variando entre um lugar alcançável, uma necessidade imprescindível, um desejo a ser materializado, um caminho a ser perseguido, um estado a ser vivido, um objetivo de vida, entre tantas outras conjecturas. São Muitas. Não é um tema novo para a humanidade e parece estar longe de ser esgotado. Pesquisas, opiniões, vivências e experiências se multiplicam e se dividem. Elevadas a uma potência que tende ao infinito, aparentemente inesgotável, misturam teoria e prática. Procuram respostas e potenciais formas de evoluirmos na direção de um “estado elevado”, de um “ser e estar” feliz, da plenitude e da autonomia.

A felicidade, em termos filosóficos, pode alcançar múltiplos conceitos, variando escolas e contextos, considerando interrogações do tipoquando”, “como”, “onde”, “quem”, “para quê” e “por quê”. Observada e comentada a mais de dois mil anos, por inúmeros pensadores e estudiosos ligados as grandes áreas humanas e biológicas, em diferentes contextos e épocas, ora se apropriando da ciência como fio condutor para encontrar respostas, ora expressando opiniões pessoais que partem do que a vida apresenta. Poderia estender este tema por páginas e páginas. Mas não é a intenção nesse momento. Trago uma pequena reflexão, sem objetivar críticas ou construir teorias. Apenas, pensar sobre. Também não espero que todos tenham a mesma perspectiva, não seria construtivo. Menos ainda, criticar o trabalho dos que estudam e se dedicam a oferecer uma reflexão para que seus orientandos, pacientes, amigos, sejam lá quais forem as relações que tematizam a felicidade, olhem para outras perspectivas.

Navegamos nesse mar de ideologias onde mercadores de todos os cantos do planeta ofertam seus mapas e seus segredos para alcançar a tão almejada satisfação de viver. Hoje, um universo de profissionais operam com a felicidade: psicólogos, sociólogos, filósofos, religiosos, míticos, médicos, coaches, e segue o menu de opções. Enfim, há um oceano de alternativas que oferecem meios para estimularmos a autoestima, a positividade, a plenitude, a harmonia consigo mesmo e com o mundo a nossa volta. Certamente existem conselhos e aconselhadores que podem guiar os desorientados, aqueles que supostamente não alcançam tal estado. Pelo menos, por um tempo. Vejo com bons olhos esse movimento humano. Mesmo não entendendo ser a felicidade um produto a ser comercializado ou um objetivo a ser alcançado.

Todo esse movimento em torno da felicidade levanta questões como: afinal, qual é a essência da felicidade? Qual conceito pode dar conta desse estado aparentemente tão desejado? Podemos mesmo definir o que é felicidade? Está claro para nós o significado do seu contrário, o da infelicidade? Logo, se estamos ou somos tristes é porque sabemos o que é estar ou ser feliz. Se estamos ou somos satisfeitos é porque sabemos o que é ser e estar insatisfeitos. Se estamos ou somos angustiados, obviamente sabemos o que é estar ou ser tranquilos. Enfim, se estamos infelizes, pressupomos saber o quê é ser e estar feliz. Assim, temos uma dualidade, assinalando a existência de dois fenômenos diferentes numa mesma pessoa ou num mesmo estado de coisas. O sim e o não, a vida e a morte, os contrários necessários para que possamos compreender o mundo exatamente como ele se apresenta. Podemos perguntar a partir disso: evoluiríamos se não houvessem dificuldades a serem superadas, se as contradições existenciais não se apresentassem no decorrer da vida? Como poderíamos desejar a felicidade sem nunca termos experimentado o oposto? Como elevaríamos nosso conhecimento sem a presença do desconhecido?

A felicidade, na divã, diz que sua contrária, a infelicidade não é uma vilã, embora seja encarada por nós como tal. Diz ainda que nem o estresse é vilão da humanidade, mesmo que estudos indiquem que os seres humanos estão cada vez mais estressados. Nem a dor e nem o medo são sensações somente negativas, que precisam ou possam ser evitadas sempre. Diz um velho ditado: “se não aprendemos pelo amor, aprendemos pela dor”. Sem os opostos, basicamente, não conheceríamos a vida tal qual conhecemos. E, pela lógica, não existiríamos no universo tal qual se apresenta ao nosso alcance. Da mesma forma, para que o bem exista, o mal também existirá. Entretanto, quando nos referimos a infelicidade, demonizamos esse estado como se fosse um mal sem precedentes, porém curável, remediável ao longo da vida. Mas afinal, quanto a sua essência, o que é felicidade? Qual o conceito de felicidade?

Li, não me recordo exatamente onde, que a sorte de estarmos vivos é a própria felicidade. Um pensamento poético que não deixa de estar carregado de sentido. Afinal, o contrário também se aplica, ou seja, não estaríamos ou seríamos tristes se não estivéssemos vivos. Notem que esse pensamento ganha força quando nos apresenta aquilo que é essencial para definirmos o mundo a nossa volta, para decidirmos o que fazermos nele e com ele. Sem afirmar ou querer apresentar uma teoria que defina a felicidade, que traga um conceito formal e englobe todas as possibilidades sobre essa sensação de “ser e estar” feliz no mundo, ou sugerir uma receita a ser seguida, arrisco um palpite:

A felicidade é imprecisa. Não podemos afirmar que sentimos felicidade igual ao meu semelhante. Da mesma maneira, não podemos afirmar o mesmo sobre a infelicidade. Muito embora, podemos afirmar que todos os opostos estão ligados, tanto em nossa realidade objetiva, como em nossa subjetividade imaginativa. Mas, sobre essas sensações opostas que denominamos de felicidade e infelicidade, penso que são, em termos existenciais, uma espécie de “empurrãozinho” natural para seguirmos interessados no amanhã. Um combustível para esse movimento paradoxal que nos faz alcançar significados e, consequentemente, traduz o que entendemos da própria vida.Ser e estar” feliz é “ser e estar” infeliz ao mesmo tempo. Um sustenta a existência do outro. Assim como morte e vida precisam coexistir num estado ou qualidade de duas ações ligadas entre si por uma recíproca dependência. Ambas, realizam as mesmas finalidades pelo auxílio mútuo ou coadjuvação recíproca. Interdependência ou causalidade, não sabemos qual delas é primeira, apenas que ambas necessitam coexistir para nos dar sentido.

Com esse olhar, podemos pensar que a felicidade não é, necessariamente, um estado de prazer, como um objetivo alcançável, como uma alternativa de vida ou uma escolha para o bem-estar. Mas, um estado regulatório do autoconhecimento, onde, através das múltiplas sensações, podemos compreender, sobretudo, os efeitos da realidade que nos cerca durante o percurso existencial. Em outras palavras, não escolhemos ser e estar felizes. Simplesmente somos e estamos felizes e infelizes o tempo todo ao longo desse estágio chamado vida.

(batschauer, 2019)

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Foto: Marcelo Pasqualin Batschauer. Dublin, IRL, 2019

 

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