Casolidão

Chego sem ser notado
No silêncio de casa vazia
Uma TV muda luzes
Como relâmpagos, ignoro

No banheiro da pia gotejante
Marca o ritmo irritante
E todo o resto permanece inerte
Menos o espelho sem expressão que se mexe

Noutra parede esquecida
Um sorriso amarelado pelo tempo permanece onde está
Prisioneiro de um prego qualquer
Em lembranças enferrujadas
De dias esquecidos
Daquele corredor, residente

Não lembro precisar de tal memória
Somente do espaço para acomodar alguns livros de história
Entretanto, como se pudesse falar
A imagem sussura coisas que só eu ouço
Sem entender porque, deixo tudo como antes

Perto dali outro copo, outra pia e uma geladeira vazia
Sede de não ter vontade de nada
Nem de fome, nem de gente, nem de sono ou de estar presente
Um nada meu que se espalha por todos os cantos da casa

O cansaço não me abraça
Sonho não me alcança
Na parede, entre paranhos, nem a traça se move
Quieta, na janela uma sombra qualquer balança
Vítima do vento ruidoso que passa

Expremo os olhos cansados
Tento pousar numa imaginação qualquer
D’onde todo o meu resto corpóreo repouse
Imóvel voe em asas da Phoenix
Entre nuvens de algodão
Na Brumas de Avalon

Mas o sono não se acomoda
A mente faz barulho e não me deixa sumir
No expiral inconsciente meu tudo gira
Aguardo impaciente a chegada d’outro dia

Feito ábum de fotografia
Lá se repetem os Eus nos mesmos lugares
E os mesmos móveis imóveis
Sem que perceba, me acompanham até a saída
Como todos os dias, sempre a troco de nada,
por uma volta à casa da solidão.

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Uma resposta em “Casolidão

  1. Me reportou a um passado repleto de vazio. Quando perdi meu pai, a casa ficou tão sombria quanto essa do poema. É tão.. nostálgico e tão sedento. A mesmice que o habita é de uma solidão quase palpável e sinto que o desejo de que tudo se distancie ainda mais é gritante. “Sede de não ter vontade de nada Nem de fome, nem de gente, nem de sono ou de estar presente Um nada meu que se espalha por todos os cantos da casa” . O vejo preso num passado de melancolia profunda. Eu gosto, gosto muito dos teus poemas. Meu tempo é tão corrido. Gosto de ler e reler e de me inserir no cenário do poema para em seguida comentar como me senti ou como imaginei o personagem, se é que me entende. Rsrs.. Beijos de chocolate e um delicioso café com bombom! ღ

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