Relação entre o Imperativo Categórico kantiano com a temática do filme “O Jardineiro Fiel”

No texto a seguir, busco sintetizar a relação do imperativo categórico, sustentado por Immanuel Kant, com o filme dirigido por Fernando Meirelles onde a temática central é o assassinato de uma ativista que, ao mudar-se da Inglaterra para o Quênia, no continente africano, junto com o marido diplomata, desvenda e se envolve numa trama de interesses privados. Esta trama utilizava-se do estado de necessidade e da ignorância do povo daquele país para defender interesses comerciais de uma minoria. Neste drama, que expõe o problema da ética e moral naquele contexto social, buscaremos ligações com o pensamento kantiano sobre o imperativo categórico e prático.

Antes de relacionarmos os imperativos categórico e prático ao tema do filme “O Jardineiro Fiel”, é importante reavivarmos os conceitos desses imperativos. Para tanto, buscaremos apoio no Livro Didático Ética Moderna, onde temos, na interpretação de Leandro Pacheco, a ideia de que tal imperativo é “um dever agir de tal forma que a ação por mim praticada seja válida não somente para mim, mas para todos os outros indivíduos”.

O imperativo categórico, por sua vez, explicita que uma ação deve ser praticada e que tal ação, não está vinculada a nenhuma condição. O imperativo categórico é uma ordem formal que nunca está condicionada a situações ou particularidades (PACHECO E NESI, p. 201-203).

Reforçando o conceito de imperativo categórico kantiano, podemos nos valer também da síntese realizada por Bárbara Freitag que preocupou-se, primeiramente, em esclarecer os conceitos que sustentam a reflexão da ética de Kant. Segundo esta autora, eles exprimem a necessidade de agir de acordo com uma lei geral, exigindo um comportamento racional que todos devem seguir. O dever de seguir uma lei geral impõe-se racionalmente, porque na lei geral todo e qualquer ser racional reconhece a defesa da dignidade humana. A dignidade humana, representada pela lei, refere-se à dignidade de cada um e da humanidade como um todo.

O imperativo categórico kantinano constitui, pois, a condição da possibilidade de existência de uma sociedade justa, fundamentada em um contrato social que atenda aos direitos de todos e defenda a dignidade de cada homem dotado de razão, e, dessa forma, da humanidade como um todo( FREITAG, 1992).

Além da fórmula da universalidade da lei, visto no que foi exposto até aqui, temos ainda a visão de Kant baseada na humanidade como fim, ou seja, a vontade da ação deve ser vista como um dever. A ideia da vontade de todo ser racional concebida como vontade legisladora universal. Kant afirma que todo o ser racional, existe como fim em si mesmo e não apenas como meio para uso arbitrário desta ou daquela vontade. Assim, tento clarear o imperativo prático citado no enunciado desta atividade .

A vontade não está, pois, simplesmente submetida à lei, mas o está de tal maneira que possa ser também considerada legisladora ela mesma, e precisamente por isso então submetida à lei (de que ela mesma pode ser considerada como autora –
FMC, 2004, p. 62).

Agora, de posse dos conceitos de imperativo categórico e prático, conduziremos sua aplicação no tema proposto em “O Jardineiro Fiel”(2005). Assim, diante da polêmica exposta no filme, que envolvia diferentes governos (Britânico e Queniano), bem como, uma grande indústria farmacêutica, foi possível perceber que a manipulação presente em todo o decorrer da história, estava diretamente ligada a questões éticas e morais dos personagens envolvidos. Todas as ações oriundas de uma minoria que detinha o poder , distorciam as informações, omitiam o conhecimento e seus riscos e, sobrepondo quaisquer interesses coletivos ou universais, faziam daquele povo uma imensa comunidade de cobaias humanas. Manipulando políticos e governantes locais, defensores da segurança civil entre outras esferas públicas e também privadas, ignoram o ideal do bem agir, do moralmente correto e do respeito a dignidade do homem. Colidem com a ideia kantiana de defender a dignidade humana como um todo. Ali, contrária ao pensamento de Kant, toda a conduta moral daqueles que utilizaram dos mais sórdidos meios para obter seus interesses satisfeitos, é rechaçada pela proposta do imperativo prático. A ativista, representada pela personagem Tessa(Rachel Weisz), percebe toda a movimentação imoral acerca do uso de seres humanos para fins de experimentação científica e diante daquele cenário, coloca a dignidade humana acima de tudo, inclusive da própria vida. Numa tentativa de coibir tais ações faz uso do livre exame, valendo-se do recurso para a própria faculdade de pensar, julgar e querer. Mesmo que, supostamente frustrada a tentativa desta ativista, em especial pelo fato de ter sido brutalmente assassinada e seus relatórios desaparecidos, transfere o dilema para o marido, Justie(Ralph Fiennes), que naquele momento representava os interesses do governo Inglês no Quênia.

Assim, ao colocar a razão acima dos sentimentos, busca na sua individualidade o pensar, julgar e agir conscientemente favorável a verdade revelada. Fazendo uso do mesmo conceito moral, opta por defender como fim último a dignidade humana, o progresso moral de cada homem e da humanidade como um todo onde a causa maior, a razão de ser, é a liberdade dos homens. A ética kantiana é a ética do dever, autocoerção da razão, que concilia dever e liberdade. O pensamento do dever derruba a arrogância e o amor próprio, e é tido como princípio supremo de toda a moralidade.

Referências bibliográficas

– CATANEO, Marciel Evangelista – Ética Moderna: Livro didático / Marciel Evangelista Cataneo; design institucional Carmen Maria Cipriani Pandini, João Marcos de Souza Alves. – 1.ed. Rev. E atual – Palhoça, 2011

– KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. São Paulo: Martin Claret: 2004.

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