Honestidade na fila do desemprego.

Num dilema moral, a honestidade, como tudo que do homem provém, facilmente relativisada, ou até mesmo desprovida de entendimento diante do olhar cético, perdeu, se é que de fato algum dia possuiu, um sentido reto. Nos dicionários encontramos esta palavra significando qualidade daquele que é puro, casto, honrado, virtuoso, razoável, justo, etc. Conceitos morais definidos pelo homem e, para ele próprio, qualificador dos seus atos. Por esse prisma, podemos dizer que um homem honesto equivale a uma pessoa que atende, respeita e pratica os princípios morais naturais ou adquiridos no decorrer da sua existência. Moral essa que herdamos de outras gerações, num saber antropológico e resultado da explícita necessidade de sobreviver, seja em bandos, seja de forma isolada mantendo um mínimo de respeito, tolerância e bom senso.

Complementarmente, quanto a “moral”, defino aqui como: conjunto de regras norteadas em costumes de boa conduta social e individual para com tudo e com todos que estão a volta e, que de alguma forma, direta ou indiretamente, tenha estreita relação com o bem estar de todos e do meio que lhe provê a vida. Pode ser, e creio nisso, que o leitor tenha opinião distinta. Porém, em resumo, no fim, todas as definições convergem para um mesmo ponto, buscando ponderar a ação e o seu resultado.

Outro dia, li uma frase curiosa que dizia: “O homem honesto é um animal em extinção”. Não sei se a autoria da frase pertence mesmo ao Lucêmio Lopes da Anunciação, mas de qualquer forma e independente de quem a criou, metaforicamente o autor verbalizou aquilo que na prática acontece desapercebidamente no cotidiano e avança desenfreadamente para a extinção. Não aponto o dedo para mim, que escrevo essas linhas, julgando-me impecávelmente honesto, mas trago a margem rasa o que a muito se perdeu da realidade e do senso comum sobre o sentido, embora subjetivo, da virtude da honestidade. Igualmente, não discorro sobre um ideal filosófico, menos ainda tento definir a honestidade num conjunto fechado e imutável de regras a serem religiosamente seguidas, porque isso poderia soar utópico. No entanto, coloco o dedo na ferida humana da conduta moral que respeita o que, notoriamente e sem margem para discussão, é bom e gera o bem e o que experimentadamente é mal e causa desconforto a qualquer homem sem distúrbios de comportamento de fundo fisiológico ou piscológico que o tornem exceção.

Na psicologia a tratativa desse tema aponta para o que os profissionais do meio chamam de “Postura de valores”. Em resumo, caracteriza-se pela tendência que as pessoas tomam no julgar determinados objetivos ou disposições de ação. Quando atribuimos valores a honestidade temos diferenciados pesos e medidas. Para alguns a honestidade é uma atitude indispensável sob qualquer circusntância, para outros é igualmente importante, no entanto, admitem que em determinadas situações uma “mentirinha”, por exemplo, é justificável, ao passo que para outras ainda a honestidade esta atrelada a tipos de comportamento subordinados a outros valores. Assim, diferentes tipos de “postura” se apresentam como características relativamente estáveis do indivíduo, dependendo porém, do ambiente externo onde se encontram.

Na teoria é o mesmo que: se educados em um meio honesto, onde a “postura de valores” dos educadores é direcionada para o bem, rechaçando o mal e valorizando o que é bom (aqui não discutiremos os pormenores da compreensão entre o bem e o mal, pois correriamos o risco de atolarmos em múltiplos conceitos e relativizações que não nos levariam , na prática, a lugar algum) tornaria todos seus sucessores pessoas com “postura de valores” boas.

Apenas para reforçar, entendamos o “bem”, aqui posto, como o ato, a ação individual ou coletiva, que dentro de uma cultura, de uma sociedade, seja reconhecida como tal. Por exemplo: Na cultura ocidental, de maneira geral, quando auxiliamos uma pessoa com dificuldade visual a cruzar uma rua estamos agindo dentro de um padrão de comportamento aceito e reconhecido pela maioria com algo bom. Num exemplo inverso, ao levarmos nossos animais de estimação para um passeio e deixarmos suas necessidades fisiológicas (fezes) na calçada, sem que recolhamos, é em consenso geral, uma ação má. A partir daí, poderiamos listar um sem fim de ações positivas e seus inversos para cada sociedade. Admitindo, nesse caso, que os bons costumes pertencem a maioria. No entanto, mesmo que de forma superficial e não filosoficamente aprofundada, a maioria de nós tem claramente a noção do bem e do mal diante das atitudes e experiências.

No entanto, se na teoria a honestidade aponta sua bússola para o norte, na prática, por sua vez, não funciona com o mesmo magnetismo. E é nesse ponto que a “postura de valores” entra em ação e faz o trem das emoções e razão humana descarrilharem. A honestidade, como um vagão desse mesmo trem, tem em seu interior uma carga de valores bastante pesada, tal qual ocorre com a carga líquida por exemplo. Está condicionada aos movimentos do trem, podendo, de acordo com o ângulo da curva e a velocidade, levar todo seu peso de uma só vez para uma das extremidades do compartimento causando o desequilíbrio dos vagões e, em função desta equação física, sair do rumo.

Obviamente não generalizarei, já que o bom senso não permite. Incluo-me na mesma parcela de pessoas que mantém uma “postura de valores” onde a honestidade é uma atitude indispensável e atrelada a tipos de comportamento ou valores que pesarão no momento da ação. Por isso, sigo inclinado para o bem, evitando qualquer escolha que possa pender para ações que causem o mal a outrem. É necessário pontuar que não podemos confundir honestidade com justiça, pois a exemplo do bem e do mal, novamente teriamos que mergulhar em conceitos mais profundos do que o necessário para a compreensão razoável sobre um comportamento honesto.

Recentemente, no país do Tio Sam, um caso típico de comportamento honesto, ganhou destaque na mídia e foi anunciado com grande espanto para o mundo, acreditem. Um motorista de táxi norte-americano encontrou no seu veículo uma sacola recheada de dinheiro (não lembro a quantia exatamente, apenas sei que era bastante dinheiro) e prontamente procurou o dono esquecido e fez a devolução. Mas por que o caso impressionou a opinião mundial e foi parar nas principais manchetes dos noticiários? Ora, a honestidade apareceu, repentinamente, da cova onde fora enterrada. Sim, espantoso, existem pessoas honestas, é o que noticiou a reportagem. Este alarde, surpreendentemente, mostra a face oculta da realidade humana. Afinal, para os que possuem valores, ou como a psicologia prefere classificar, “postura de valores” direcioanda para o bem, esse tipo de atitude não deveria causar o frisson que causou. Em regra, deveria sim, ser uma atitude, no mínimo, corriqueira entre todos nós.

Isto reforça que a opinião geral sobre nós mesmos não é das melhores e reflete o quanto estamos desacreditados do comportamento humano. Pior, a pessoa honesta virou exceção a regra. Atitudes honestas como a do motorista que devolveu o bem alheio, foi considerada por muitos como uma “possibilidade”. Dúvida do tipo ser ou não ser correta a atitude de devolver o dinheiro. No que pese esta visão, questiono se esse espanto todo não é apenas o reflexo de estarmos paulatinamente incorporando a falta de ética nas atitudes sócio-políticas que assistimos diariamente? Se, conformardos com o mal a que estamos expostos, aceitamos de forma passiva e consciente como natural tais ações desonestas dentro das nossas relações sociais e interpessoais? A honestidade não deveria nos causar espanto algum e sim o inverso, certo?

A reflexão, por ora, fica por conta de cada indivíduo sobre sua “postura de valores”. Postura que por vezes é frágil quando surge gratuitamente qualquer possibilidade de obter “vantagem” individual. Assim, como na política, por exemplo, onde tudo o que assistimos é um bando de indivíduos facínoras alimentando a desonestidade e consequentemente contaminando toda a sociedade, ao agirmos desonestamente, ampliamos esse câncer moral para todas as esferas (públicas e privadas) e sem qualquer peso e medida promovemos um rol ainda maior de hipócritas estimuladores do desemprego da honestidade.

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