Sobre Alegoria da Caverna de Platão e comentários reflexivos de Saramago

A Alegoria da Caverna de Platão, livro VII da obra A República, seguirá sempre atual em qualquer momento histórico, concretizando-se independente do tempo, bastando apenas que o homem esteja presente nele. Esse movimento de ir e vir para fora e para dentro da caverna, essa alegoria de sentido simbólico-imagético, é, na verdade, comum ao ser humano em toda sua história. A metáfora mitológica criada por Platão, que trás para a superfície a árdua e irônica caminhada na direção da sabedoria (sophia), cruza a linha do tempo, a história, e será atual em todo momento humano. Nas palavras de Saramago, que certamente não foi autor desse pensamento, senão mais um locutor da dúvida, na sua eloquência, afirma que “a maioria das coisas em nossas vidas acontecem sem muito sentido. Então somos todos avidos pelo significado”, traduzindo assim a natural ânsia do “eu” kierkegaardiano (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Desespero_Humano) sempre desesperado e ávido em cruzar a suposta e imaginária linha limítrofe do conhecimento para além do tempo que lhe é permitido existir enquanto indivíduo. Não cabe avaliar aqui a satisfação do “eu” ou buscar respostas aos porques da existência humana, mas apontar para a reflexão exclusiva sobre essa ânsia da busca sem fim pelo fio condutor do significado de tudo que é pertinente ao homem independente do seu momento histórico-evolutivo.

Se por um lado, segundo Saramago, estamos cegos para a sensibilidade e para a razão e nos tornamos egoistas e agressivos ao sairmos da caverna, por outro,  acabariamos insatisfeitos e inseguros se permanecessemos inertes na sombra do desconhecimento, acorrentados na caverna de Platão. Além do mais, foi na maturidade, aos setenta e sete anos, na proximidade do seu próprio fim, como relata o escritor no vídeo “Caverna de Platão e as imagens”, que Saramago se deu conta das necessidades simplistas e sem aparente explicação de assistir o crescimento, o renascimento, a evolução das plantas em seu quintal. Que lhe gerou uma consciente satisfação (razão) e um desejo inconsciente (emoção) de permanência no amanhã. A sintética certeza de que a vida cessará e todo conhecimento, toda experiência, é apenas uma ponte formada de símbolos e imagens, com objetivo ainda impreciso, a qual chamamos “conhecimento” e, que esse mesmo saber, não garante certeza alguma de outros propósitos para além da caverna de Platão. Haverão sempre homens livres e acorrentados, haverão sempre céticos e inconformados e, esse existir, é o movimento que faz o ser humano ontologicamente carente de si mesmo.

 

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