Com a palavra: Carlos Euclides Marques

Sugiro a leitura a seguir para os amantes do saber, do ensinar, do conhecimento, das boas práticas e demais curiosos. Trata-se de um texto cuja autoria é do Filósofo e Professor do curso de Filosofia da UNISUL, Carlos Euclides Marques, que muito contribui para minha inicial e não menos empolgada escalada rumo ao saber. Exponho esse texto, pois ele sintetiza muito bem não só para aqueles que ensinam, mas para os que querem aprender também. Expõe, de forma clara, uma realidade que deveria vestir nossas instituições de ensino com ética e valores irrefutáveis. Agradeço ao Professor por autorizar a publicação e permitir a todos que me lêem refletir acerca dos fatos. Boa leitura!

Aos Professores.

 Face ao que tenho escrito, retomei algumas leituras. Desta feita, o diálogo de Platão Críton ou do dever é fundamental. Leiam e pensem sobre as palavras de Sócrates a Críton sobre o significado de sua escolha.

Rede-te, finalmente, ó Sócrates, a nossas razões, segue os conselhos das que fizeram de ti o que és, e não ponhas teus filhos, nem tua vida, nem nada desse mundo acima do que é justo, para que, quando chegares ao Hades, tenhas com que defender-te diante dos juízes, porque, não cries ilusão para ti, se fazes o que te propuseste a fazer, farás com as leis e não farás que tua causa, nem do teus, seja melhor nem mais justa, nem mais santa, nem em vida, nem em morte. Se morres, serás vítima da injustiça, não das leis, mas sim dos homens e se sais daqui vergonhosamente, trocando justiça por injustiça e mal por mal, faltarás ao pacto que te obriga conosco, leis, e prejudicarás a muitos que não deveriam esperar isto de ti e a ti mesmo, bem como conosco, a teus amigos e a tua pátria. Sempre, enquanto viveres, seremos tuas amigas irreconciliáveis e quando tiveres morrido, nossas irmãs, as leis existentes nos infernos, não te receberão, sem dúvida, favoravelmente, sabendo que fizeste todos os esforços imagináveis por destruir-nos. Não segue, portanto, os conselhos de Críton, mas os nossos.

Certamente, não acredito em espíritos ou deuses que regem a vida e, aos quais, devemos responder. Muito mais, penso que devemos responder a nossos princípios. Mesmo porque, mais cedo ou mais tarde alguém perguntará: “E os seus princípios, onde estão?” A moral é, ou deveria ser, como dizia Kant num imperativo categórico: “Faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem a ti mesmo”. Nunca gostei de professores que faziam que davam aula, que não corrigiam meus trabalhos – sempre procurava as anotações para saber porque tirei uma dada nota, fosse qual fosse -. Na medida do possível, procurava entregar meus trabalhos antes do tempo; esperando que o professor desse um retorno para melhorar o trabalho. Caso não pudesse entregar algo no prazo – Fazer o que! – o professor tinha todo direito de não aceitar. (Também trabalhava, quando comecei minha graduação. Foi cobrador de ônibus, com uma jornada de trabalho de doze horas diária.) Do meu ponto de vista, já como graduando, nada justificaria aquilo de chamávamos pacto de mediocridade: “Você faz que ensina e nós fazemos que aprendemos”. É por estas e outras que faço questão de corrigir detalhadamente as atividades dos estudantes, mas não corrijo apenas, também: mostro caminhos; anexo textos – que algumas vezes escaneio ou fotocopio do meu própria bolso -; também atendo aqueles que, angustiadamente, não entendem o que foi escrito; explico, gasto o tempo que for preciso. Nas aulas exploro o texto: no nível metodológico, sintático argumentativo; explicando e comentando. Ultimamente, reduzi a quantidade de páginas para leitura, pois muitos colegas diziam, indiretamente: “Tem gente que enche os alunos de leitura” – Para constatar isto basta ver meus primeiros programas e comparar com os últimos -. Não raramente, recebo ligações de estudantes que já passaram por mim ou recomendados por outros. Recentemente, recebi um professor que ministraria Ética e estava um pouco perdido, sobre o que trabalhar. Conversamos uma tarde inteira. Ele saiu da minha casa com filmes, livros e alguns escritos (modestos) meus. Não faço isso por missão, não cobro – Por isso, já fui chamado de otário -. Faço, simplesmente, porque gosto e me sinto alegre em compartilhar o pouco que apreendi. Também considero isto uma obrigação. Quando fiz mestrado, recebi bolsa, toda minha vida escolar foi em escolas públicas. Alguém, ou melhor, muitas pessoas que ficaram para trás pagaram os meus estudos. Tenho que retribuir. Mesmo porque nem todos desenvolveram as capacidades que procuro aprimorar. Certamente, aquele velho amigo, que nunca mais vi, morador do morro próximo do Grupo Escolar Ismael Branco, se souber onde estou, ficará orgulhoso de saber que entre muitos da salinha de um colégio pobre do primário, pelo menos um chegou na Universidade. E mais, é professor! Nenhum esforço meu é suficientemente grande para diminuir esta diferença, mesmo porque mesmo esta conquista (minha) não alimenta a fome ou diminui a pobreza do país. E a pior de todas as pobrezas é a ignorância.

Talvez, como diz Sócrates no Protágoras (outro diálogo platônico): “Não podemos cobrar respeito aos outros daqueles que pagam sua educação, pois estes já pagaram por o que queriam.” (a citação é de memória). O dilema está no seguinte: e se eles pagam numa estância, para professar em outra (esta pública); se eles podem ser professores de meus filhos, o que devo esperar se fui eu (que fiz que o avaliava) que o “formei”?

Na correria de prazos, metas a cumprir e calendários inflexíveis, é muito mais fácil entregar o peixe do que ensinar a pescar. Falta de tempo não pode ser desculpa, nunca! Sempre é tempo de ensinar a pensar, buscar, investigar, criar hipóteses, descobrir. Por isso é necessário estar sempre atualizado, conhecer novas técnicas de aprendizagem, acompanhar as novidades. Perceba como seus alunos estão sempre com a vara de pescar na mão. Se têm preguiça é porque não foram estimulados o suficiente.” (Tião Rocha, Antropólogo, NOVAESCOLA, set-2001. Grifo meu.)

O tempo dirá!

Autor: Carlos Euclides Marques
(cópia fiel ao original)

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