Homeostase Social

Embora o termo homeostase tenha sua origem na biologia, mais precisamente nos organismos vivos, respresentando o equilíbrio do sistema interno para manter a condição orgânica estável e consequentemente a saúde do indivíduo, admite-se o emprego da terminologia em outras esferas externas ao corpo propriamente dito. Ambientalistas utilizam o termo homeostase ecológica admitindo que todo planeta com vida é um vasto organismo que depende, por exemplo, de um equílibrio atmosférico. Médicos aplicam o termo relativo ao corpo humano enquanto sistema fechado. Biólogos, como citei acima, admitem o termo para todo ser vivo. Psicólogos vêm admitindo que o ser humano também depende de uma homeostase psíquica para nivelar o estresse emocional. Enfim, poderiamos raciocinar na miríade de aplicações do termo homeotase ao fazermos referência a todos os sistemas fechados complexos existentes. Inclusive para sistemas subjetivos, porém não menos complexos e restritos, como a sociedade humana.

Antonio Damásio1, neurocientista e profundo conhecedor do cérebro humano, sugere em uma de suas obras que nós, seres humanos, possuimos naturalmente dois modelos intrínsecos de homeostase: a básica, que é guiada de modo não consciente e a homeostase sociocultural, criada e guiada por mentes conscientes reflexivas e que atuam como zeladoras do valor biológico. Embora as duas variáveis estejam separadas por bilhões de anos de evolução, promovem ainda o mesmo objetivo, a sobrevivência do organismo. Ainda segundo o autor, esse objetivo é ampliado, no caso da homeostase sociocultural, que passa abranger deliberadamente a busca do bem-estar. O modo como o cérebro humano administra a vida requer a interação das duas homeostases contínuamente. Enquanto a variedade básica é uma herança estabelecida, fornecida pelo genoma de cada um, a sociocultural por sua vez, é um processo em desenvolvimento frágil, responsável por grande parte dos dramas, loucuras e esperanças humanas. A interação desses dois tipos de homeostase não se dá apenas em cada indivíduo. Há evidências crescentes de que, ao longo de muitas gerações, transformações culturais levam a mudanças no genoma.

Sendo assim, podemos conceber que a consciência humana e as funções que ela possibilitou (linguagem, memória expandida, raciocínio, criatividade, todo o edifício cultural) como zeladoras do valor nas criaturas modernas acentuadamente mentais e sociais que somos. Todo esse conhecimento científico, toda esse saber nos ensina mais do que um sistema lógico de compreensão da evolução humana, nos mostra que nossa natureza anseia pela vida o tempo todo, consciente e inconsciente. Que a homeostase é necessária em todos os sistemas organizados, complexos ou não, que anseiam pela sobrevida de uma espécie e na sua constante transformação e preservação.

Apartir desse conhecimento devemos refletir sobre o equilíbrio social, algo que a princípio não sugere mais do que uma utopia, mais do que um desenfreado crescimento onde as rédeas estão soltas e o caos instaurado. Se em milhões de anos seres simples, unicelulares, providos apenas de homeostase básica conseguiram se organizar a ponto de evoluirem em milhares de outras formas e garantirem a existência de tudo que somos,  por que nós, conscientes e evoluidos, não conseguimos mais aplicar as mesmas regras para darmos continuidade a vida de forma equilibrada, inteligente? Em que momento da nossa evolução, enquanto seres racionalizadores, compreenderemos a real necessidade de promover a homeostase social? Será que compreenderemos esses valores e empreenderemos o equilíbrio necessário a nossa existência?

1Damásio, António R., E o cérebro criou o Homem; tradução Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Título original: Self comes to mind: constructing the conscious brain. – ISBN 978-85-359-1961-5 , pág. 44

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