Diálogos de Vida e Morte – Cap. 1

Diálogo I – A voz da experiência

– Só encontro com você no fim. Estas sempre no fim da fila, sempre por último, sempre chegando quando tudo acaba. Fico curiosa e preciso saber o porquê? És tão poderosa, misteriosa e ninguém ousa desafiar-te e por que, mesmo assim, você prefere a solidão e isolamento do final? Isso não lhe incomoda? Esse negócio de ficar sempre para trás não lhe afeta a estima?

– Honestamente? Não.

– Ah Morte, como me é dificil acreditar na sua negativa. Crer que não sintas nada? Duvido! E se não bastasse respondes quase monossilábica a minha curiosidade. Dê-me uma resposta completa, note a profundidade do meu interesse especulativo. Garanto-lhe, é pura compaixão. Vê-la sempre tão só, no fim, dá calafrios. Conte-me, seja honesta comigo, afinal sou sua melhor amiga, sou a Vida, lembra? Tenho virtudes invejáveis, tenho histórias com múltiplas origens, sem falar que sou a preferida de todos. Afinal, todos desejam-me mais do que a você, não concordas?

– Falas demais, Vida “amiga”.

– Eu sabia! Eu sabia! Há em você mágoa, sentimentos afloram, não é, Sra. Morte? Estava segura que se lhe pressionasse os brios, se lhe provocasse a dúvida, acabarias abrindo espaço para mim, sua sábia companheira Vida. Não temas minha amiga, sou o Conhecimento do Conhecimento, sou todas as coisas vivas e tudo sei. Estou certa que a entenderei e, quem sabe, dar-te-ei bons conselhos para alcançares sua felicidade. Vamos, conte-me sua intimidade, confesse que há um sentimento que lhe incomoda em relação a minha sorte.

– Pensas demais, angustiada Vida.

– Angustiada? Eu? Nunquinha! Estas redondamente enganada! Tão redondo quanto esse planeta inteiro. Até parece que eu, com toda essa beleza que me cerca, com todas essas coisas maravilhosas que oportunizo, esse mundo de sentidos que desfrutam os vivos, haveria qualquer tipo de angústia em mim. A Senhora está completamente enganada a meu respeito. Eu nasço todos os dias nova, vistosa, encho de felicidade tudo e todos. Estou em praticamente tudo que nos faz existir. Estas desviando o assunto, fugindo da minha pergunta. Confesse, vai. Sei que estas triste por seres sempre a última a chegar. Que te incomoda o fato de entregar o fim à felicidade alheia, à vida de todos.

– Sempre te achei sensível demais, frágil demais. Cala-te pois não me compreenderás nunca. Trate de cuidar de você e de todos da sua espécie. Deixe-me fazer minha parte em paz e não me provoques mais.

– Hum, sinais de irritação nas suas palavras. Quem diria, sempre austera e aparentemente intangível, mostra sinais de desconforto emocional. Não se preocupe, já disse, sou sua amiga e só quero que compartilhes comigo seus medos, seus problemas. Sou uma boa ouvinte e tenho sempre sábios conselhos. Já passei por todos os estágios da emoção e sei como lidar com cada um dos cinco sentidos. Não temas minha “velha” amiga, quero apenas te ajudar a libertar-se das mágoas e, com isso, seres mais feliz, assim como eu. Já reparou que acordo todos os dias diferente? Que estou em todos os cantinhos desse lindo planetinha repleto de mim? Já notou como todos me admiram e me desejam? Estou certa que adorarias ser desejada como eu. Ser admirada como eu. Reverenciada todos os dias. Lutam por mim a cada segundo. E você? Não achas que esta na rabera da existência? És uma icógnita para todos, isso não te aflige? Saber que não tens histórias para contar, conhecimento para compartilhar, amigos para somar… Me entristece vê-la assim. Só. Sempre só.

– … (silenciosa a morte segue olhando para o nada, para o infinito. Pensativa).

– Vais ficar aí, parada, sem dizer nada? Esse silêncio sepucral me irrita, me deixa nervosa. Deixe-me ajudá-la funesta amiga. É depressivo ver-te assim, como uma “coisa” sem sentimentos. Essa “coisa” inexplicável e triste que é você. Pare e reflita um pouco, posso compartilhar meu conhecimento, que é imenso, que trago tattoado em mim a verdade sobre a primeira forma de vida, o primeiro “Ser” desse lugar. Preste atenção, posso traduzir meu passado e mostrar-lhe como tudo isso aqui é melhor desde que surgi nesse mundo. Posso libertá-la desse cárcere sombrio e descohecido que habitas. Vamos lá, anime-se, confie em mim. Sou energia poderosa para a felicidade. Nada é mais importante do que eu. Nada. Estas esperando o quê? Não sejas orgulhosa. Embora saibamos que o orgulho seja uma virtude dos vivos e, que eu no fundo desejo que você também o sinta, não deve ser excessivo, nos faz mal. Viu? Como sou conhecedora e generosa? Abra-se para mim, estou aqui, de braços escancarados.

– Desesperada como sempre. Não me importune mais. Vá cuidar dos seus.

– Ah não, não senhora! Você precisa me dar ouvidos, precisa de uma amiga para se aconselhar, precisas precisar de alguma coisa. Todos precisam precisar, todos necessitam algo. Sou a Vida e como Vida entendo que ninguém vivo é 100% inerte. Vazio. Não tenho dúvidas quanto a isso. Sem amigos? Sem nada? Como pode? Alto lá, minha cara Morte. Você esta sendo grosseira. Estou aqui, a me oferecer como “ombro”, como uma amiga para solucionar seus problemas e me viras as costas? Me ignoras? Me tratas como se não precisasses de mim, que podes existir só consigo mesma? Isso me parece egoismo demais. Para quem não tem sentimentos estas se saindo uma Velha rabujenta e egocêntrica. Cansei, ou falas alguma coisa ou ficarei todos os dias, enquanto existir, fugindo de você. Nem adianta querer meu perdão, jamais o aceitarei por me tratares assim, como se nada eu fosse.

– Me pareces angustiada para quem se diz tão virtuosa. Pois bem, queres minha opinião, terás. Mas antes preciso te lembrar de alguns aspectos importantes. Veja bem, eu, ao contrário de você, sempre existi. Existo em todos os tempos e em todos os lugares. Sou eu quem estava aqui muito antes de você torna-se uma insignificante célula. Sou anterior a esse mundo e todos os mundos. Transcendo o tempo e espaço. Seu Conhecimento do Conhecimento é tão jovem comparado a mim, a colocaria em meus braços enquanto eu, anciã ao seu lado, embalaria-te no meu colo. De mais a mais, não exiba tanto suas virtudes. Pois todas as suas virtudes me pertecem. Você as tem pelo simples fato de “Eu” existir. Achas mesmo que estas sempre a frente da fila e eu por último? (Risos) Não, minha inocente amiga. Eu sou a fila na qual você esta. Minha felicidade é sua juvenil inocência, sua crença em ser precoce conhecedora de tudo. Mas, curta é sua memória, tão curta que ignoras sua finitude enquanto eu, que como você mesmo diz estar no fim de tudo, sou infinita. Vejo que andas ocupada demais para entender-me. Mas, respondo sua dúvida: O que lhe faz pensar que sou última se quem tem fim é você? Eu sou e estou no começo de tudo, inclusive, do seu fim.

(batschauer)

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