+ informação – valores = Geração Y

Basta uma caminhada pelo centro da cidade num dia de chuva e facilmente constatamos que os valores da boa educação estão agonizando em um quarto qualquer de hospital. Explico e exemplifico narrando um episódio tão comum quanto corriqueiro.

“Caminhava pelo centro da cidade esquivando-me pelas marquises num, nem tão belo, dia chuvoso. No caminho, onde a passagem estreitou-se, esbarrei numa mocinha que aparentava uns 16 anos de idade, com seu guarda-chuva colorido e perigosamente aberto, desatenta para os que vinham na direção oposta. Sem o menor critério para avaliar a situação a tal rapariga prostrou-se na minha frente esperando que eu desse passagem, que eu abandonasse a proteção da marquise e a ela cedesse o lugar seco abaixo do alpedre. Atônito, esperei o bom senso da moçoila. No entanto, sem se fazer de rogada, lançou um sonoro “sai da frente”! Sem qualquer preocupação com formalidades, olhou-me dos pés a cabeça e emendou: – Mal-educado! Pasmei com tamanha ousadia, arrogância e ausência de valores daquele projeto de mulher. Mantendo o bom humor, sem apelar para ofensas, sorri e falei brincando: – Então, por gentileza, empresta seu guarda-chuva pois para quem esta andando debaixo da marquise, não fará diferença alguma, não é mesmo? No mesmo instante, sem desviar o olhar que parecia encher-se de peçonha, a menina crescida retrucou: – Grosso! Pasmaceira total! Naquele instante não encontrei resposta adequada. Afinal, o que dizer para uma pessoa que não se propõe a entender o óbvio? Como agir contra a falta de educação sem perder a minha? A solução foi dar dois passos para o lado, molhar-me e seguir o caminho ruminando a indignação enquanto a “senhorita razão” seguia seu destino carregando no DNA valores distorcidos para um próxima geração”.

Indignei-me confesso. Pois aprendi, no berço familiar e na escola, os bons modos, os melhores tratos para com o próximo. Meu lar não era de ouro maciço, abastado, do tipo endinheirado, era uma casa de pessoas simples, de hábitos simples, mas de valores translúcidos. A escola, muito embora fosse particular, foi paga pelos meus pais com esforço hercúleo. Além disso, sempre fizeram questão de afirmar ser, aquela oportunidade, a maior herança que podriam deixar-me. Verdade verdadeira!

Sem medo de errar, quase 100% dos meus amigos de infância, da rua onde morava, do colégio, tinham valores semelhantes. Ventilavamos facilmente agradecimentos e desculpas como: “muito obrigado”, “por favor”, “desculpe”, gestos gentís e tantos outros detalhes pequenos, mas não menos importantes para um bom convívio social.

Não faz muito que a boa educação, praticamente gratuita e obrigatória, era comum a todos. Conceder o lugar para uma pessoa mais velha, uma mulher grávida, um enfermo, era óbvio demais e faziamos tudo praticamente de forma automática. Agradecer um presente, um favor a alguém, pedir licença, aguardar a vez para falar, mastigar com a boca fechada, falar corretamente, não responder aos mais velhos, silenciar palavrões de baixo calão, pedir licença ao sentar e ao sair da mesa durante as refeições (sem arrastar a cadeira), desejar uma boa noite, amanhecer com um “bom dia” entre outros, eram hábitos saudáveis para o convívio. Isso é óbvio demais e não resta dúvida que todos eram e ainda são de grande importância e respeito aos iguais.

Mas a sociedade tem pressa, precisa mudar, estabelcer novas regras de conduta, novos valores individuais, novas regras sócio-comportamentais. A onda do “fast-tudo” parece suprimir o elementar. Não questionam mais por onde andam as boas maneiras, a boa educação e o respeito humano. Estamos mesmo evoluindo enquanto seres racionais? Toda essa tecnologia, todo o conhecimento, todo estudo, tanta informação disponível, tantos meios novos para nos comunicarmos mais e melhor, etc, para quê? Deixamos a deriva o mais simples, o mais lógico e fundamentalmente necessário: o respeito ao próximo. Adoecem as relações interpessoais. A consideração entre as pessoas encontra-se num estado patológico que parece incurável, tendendo a uma proliferação viral do descaso com os bons costumes, convergindo-os gradativamente para a indiferença entre os homens. Uma espécie de doença social está sendo transmitida de geração em geração. Sintomas de anarquia no genoma dos costumes, evoluindo para um comportamento materialista e culminando num egoismo individual descortês sem precedentes na história da humanidade. Ser moderno é isso mesmo?

Estou certo que não. Que não dói, nem fere o orgulho de ninguém dar o devido respeito. Ao contrário do que se pensa é, nos dias de hoje, o que difere as pessoas. Está para quem quiser ver, a olhos nús, que as pessoas se perdaram das boas maneiras, da boa educação, do tratamento respeitoso e cavalhereisco. Quando não, ficam perplexas, embaraçadas e até acham graça, para não dizer “careta”, alguém fazendo uso de gentilezas. Vira motivo de chacota e torna-se arrogante tudo que é polido. Há, por incrível que pareça, quem considere “unfashionable”, “démodé” e vomite uma boa gargalhada estúpida e de escárnio na face da pessoa cortês.

Já nem sei se estou fora da realidade, se vivo num tempo passado e não me dei conta do “novo”, se o apreço pelo respeito e a boa educação não merecem o mesmo valor e se a vanguarda do comportamento é evitar clichês tão valorizados no tempo em que os pais tinham orgulho da boa educação dos filhos. A orientação bem sucedida como um prêmio por conseguirem transpor a árdua tarefa de ensinar valores aos jovens sempre belicosos. Talvez, preciso “rever meus conceitos”, muito embora, aos 43 anos de idade, ainda acho apropriado usar “Sr. e Sra.” como forma de respeito para com meus pais, nunca por obrigação ou austeridade, mas por compreender que educar é mais uma forma de amor gratuito, incondicional.

Edimburg, UK

Foto: Marcelo P. Batschauer

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2 respostas em “+ informação – valores = Geração Y

  1. Marcelo,

    fora da realidade, ou de moda… Não. Essas coisas não saeam de moda, são valores que partem de um maior: o de respeito a todos os seres vivos.
    Consigo te compreender e também fico me sentido fora do planeta às vezes quando minha paciência fica mais limitada.

    Melhor adquirir um guarda-chuva, até porque o tempo ainda promete mais chuva para os próximos dias…

    Beijo, querido!
    Saudade de ti!

    Marlene

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  2. Meu Caro,
    concordo em número, gênero e grau. Aliás, vc expôs muito elegantemente o que eu digo todo dia…
    Nós parecemos seres de outro planeta, que caíram numa terra a qual não reconhecem, com seres diferentes, de valores e comportamentos distintos… Apesar dos meus 40 anos apenas, às vezes me sinto uma velha, saudosa do “seu tempo” e de como a palavra e a educação eram valorizados na sociedade…
    Se te serve de consolo: não estás sozinho, absolutamente! <:)

    Abração,
    Fernanda.

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