Da janela

Com o nariz colado no vidro via a vida passar

Lá, onde tudo era simples
Nas janelas dos carros 
Enquanto memória de criança
Assistia atento o mundo correr parado
Do lado de fora 
Sem entender, sem detalhes 
Colorido era o tempo viajante
Do pequeno infante


Com o nariz colado no vidro via a vida passar

Lá, onde as crises da rebeldia se revelavam
Nas janelas dos ônibus 
O mundo passava lento, demorado
O tempo era distante 
A aventura constante
Despretenciosos eram os olhos que tudo viam
Que pouco aprendiam na mais bela fase
A mais insana e desajuizada puberdade
Preto era a cor predominante
A do adolescente prepotente
Que desafiava a vida caminhando nos
Eirados da indomesticável idade

Com o nariz colado no vidro via a vida passar

Lá, onde a arte da conquista iniciava-se
Sem aluno, sem aprendiz
Nas janelas dos edifícios
O mundo passava incerto
Sem entender para onde todos caminhavam
Sem compreender a espiral de sentimentos que brotavam
As mãos do instinto faziam seu trabalho
Conduziam então o jovem para longe da matilha
Abriam-lhe o desejo de ser dominante no seu próprio oásis
Inocente e despreparado fitava o além do quintal
A mercê da hora, do ilógico destino


Com o nariz colado no vidro via a vida passar

Lá, onde os valores metamorfoseavam
Homem, pai, eterno aprendiz
Nas vidraças da casa
A vida refletida e quase transparente 
Era frágil e parecia aninhar-se pelos cantos
O amor parecia certo e matemático
A rotina moldava-se por si
Ir e vir era diário e laboral
Do beijo matinal ao retorno do boa noite
Das alegrias do ensinar, das dores do aprender
Ainda homem a locupletar-se 
Ainda jovem a espelhar-se no futuro de outrém

Com o nariz colado no vidro sigo vendo a vida passar

Aqui, onde nada parece definido
Onde o finito se apresenta
Na janela do presente
No vidro embaçado do agora
No sopro da ansiedade do amanhã que chega veloz
Vejo o dia virar noite num piscar de olhos
Vejo a curta duração das coisas
O alucinado desejo do ser melhor e maior
Que nada sei senão um pouco de muito que é muito pouco de tudo
Que amor não vem com talvez
Que metades não completam o todo
Que o todo não é infinito
E, amanhã, espero estar com

O nariz colado no vidro vendo o futuro chegar.


 

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