Sobre pensamentos e frases que circulam na Internet

Basta-nos uma conta de e-mail e passamos a fazer parte da globalização. Não é novidade alguma que essa mídia, de sobressalto, invande nossa vida como uma avalanche de conteúdos informativos. Dentre milhares de mensagens indesejadas, chegam também centenas de arquivos de textos e frases de autores diversos. A grande maioria com belas revelações, antigos ensinamentos e modernos pensamentos. Outro tanto, de pouco interesse, do tipo bonitinhas, bacaninhas e outros diminutivos que nada acrescentam a nossa vida além de encherem a caixa de mensagem e a paciência de quem recebe.

Recebi um desses e-mails e resolvi avaliá-lo. Antes de prosseguir observo que geralmente as mulheres realmente valorizam mais as coisas inteligentes do que nós, os homens. Esses, grupo onde me incluo, preferem encaminhar anexos com fotos de nudez, videos pornográficos, sites de games, coisas de pouco valor cultural e grande apelo recreativo a frases feitas e belos ditos. Coisa de “macho”, sabe como é. Não sabe? Então reveja seus conceitos sobre o gênero. Voltando ao assunto, eis o texto recebido:

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido”. (Dalai Lama)

A princípio, sem racionalizar, é muito interessante este ponto de vista. Arrisco dizer ser mais espiritual que prático. Resta-nos saber se, o que ele diz, é uma crítica ao homem moderno, um alerta ou uma mera observação e se realmente pertence a quem diz pertencer? Será mesmo de Dalai Lama? Sinceramente não sei.

Mas sigo exercitando o racional: “…Viver como se nunca fossemos morrer…” Não seria o mínimo necessário para não desistirmos de viver pensando no óbvio todo instante, na morte? Afinal de contas, nem o autor, nem humano algum livrar-se-á da regra mais certa desta vida. Nem conseguirá pré-dizer quando isso acontecerá, então, as palavras acima contém uma verdade óbvia. Mas tudo bem. Seguindo a lógica racional seria, nesse caso, o mesmo que pedir para viver o tempo todo lebrando que poderemos morrer amanhã. Isso nos tranformaria numa multidão de necrofóbicos ou com um pouco mais de sorte um bando de humanos com síndrome do pânico de morrer abruptamente.

Em “Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde…” pergunto ao mestre: Alguma sugestão para ganhar dinheiro sem sacrifício? Ou pelo menos com pouco esforço e de forma salutar? Nem precisamos lembrar que para os seres humanos a vida não segue regra específica. Nem trás riqueza pronta para desfrute. A maioria absoluta precisa de dinheiro e de saúde, precisa também acreditar no futuro. Por mais pobre de espírito que isso possa parecer diante do saber transcedental de uma pessoa que prega o desapego, a de trabalhar todos os dias por um quinhão qualquer, de querer ser e fazer parte da rotina viva, forma um homem cada vez mais “enfermo” no complexo ambiente evolucionista e valida-o enquanto ser socializador. Tal afirmação, essa aí de perder saúde e recuperar saúde relativisando com o ganhar dinheiro e perdê-lo, tem como prerrogativa uma vida livre de necessidades como “grana” e suas derivações. Talvez, voltarmos a viver na cultura de subsistência, podemos nos livrar desse mal. Ou, quem sabe, migrar para montanhas distantes e retroceder as sociedades para uma realidade de milhares de anos atrás. Quem sabe a Mega Sena? Hummm…sei não, jogos de azar me parecem tão insalubres quanto trabalhar 44 horas por semana. Esperava que no mínimo apontasse o problema e logo sugerisse a solução.

“E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro”. Pouco ou nenhum sentido revela a frase. Uma visão romanceada e sem embasamento, pois se todos os homens soubessem a resposta para essa equação apresentada, tentederiamos viver num tempo novo, creio que numa dimensão ainda desconhecida ou talvez no futuro mais do que perfeito, quem sabe no pretérito do futuro? Sei lá se isso existe! Será que é o “ansiosamente” o cerne da questão? Então inspirem, expirem, inspirem, expirem, soltem seus demônios, libertem-se dos seus problemas humanos e sigam as instruções de como viver sem preocupações futuras no manual do ser humano perfeito do presente. Fácil! Acreditem, esse negócio de ansiedade é doença do homem moderno. Antigamente, lá nos primórdios da humanidade, nem eramos tão ansiosos assim, afinal, não precisavamos de dinheiro para nada. Tá certo que o estado de alerta tinha que funcionar senão sabe como é, viravamos o prato principal da outra espécie mais forte, mais ágil e ansiosa por encher o “bucho”. Convenhamos que foi essa ansiedade a flor da pele que trouxe-nos até o dia de hoje como espécie predominante. Essse bando de bípedes que tem o dedo polegar opositor e neocórtex altamente desenvolvido deve sua existência em parte ao raciocínio e noutra grande parte a essa “ânsia” de viver o amanhã. Ta aí? Vamos parar de se preocupar tanto com o amanhã, acho que era essa a intenção do mestre. O barato é o seguinte: se der, deu. Se não der, não deu. Ou vice-versa, tá ligado?

Mestre, em resumo, não há cartilha do saber viver, diz o aprendiz. Quanto mais inteligentes somos, maiores as chances de nos tornamos ansiosos, aflitos por assim dizer, pois o saber exige o fazer, o executar, o correr atrás e melhorar, o recomeçar, o aprender e o reaprender.
São os medíocres, os ociosos e acomodados que enaltecem os distintos e aflitos pelo futuro. O fraco precisa coexistir com o forte. O doce se destacar diante de todos os azedos, salgados e amargos. Precisamos sim, ser mais inteligentes para evoluir o amanhã. Precisamos de toda ansiedade paradoxal para levarmos adiante nossa existência. Só assim, ansiosos pelo amanhã, teremos um porquê locupletando a roda-vida, essa complexa vida humana. E, por fim, disparo aqui, sem a menor pretenção de convencer alguém,  o canhão: “É importante o mestre transmitir seus pensamentos, mas é igualmente necessário não aceitarmos todas as palavras como verdades tácitas. Senão, seremos exatamente aquilo que o próprio mestre deseja que não sejamos. O começo do fim”.

(batschauer)

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