Confissões do eu para mim mesmo.

Confesso que ando um pouco frustrado com a vida, ando temperamental, sem paciência, tolerância zero com as pessoas. Ora estou, ora não estou lá muito satisfeito com o andar da carruagem. Questiono incessantemente. Sempre jogando a moeda. Vejo dois de mim. Um cara que gira veloz e um coroa que para n’algum lugar, quase sempre no mesmo. A mesma moeda, duas facetas, dois de mim.

Eu, olhe para trás e busque alguma exatidão no seu passado. Olhe para o futuro e tente advinhá-lo. Concentre-se no presente sem tentar freiar a vida. Eu, passou, agora já não és o mesmo eu de antes. Novamente te pergunto: vale resposta para esta dúvida, a de tentar resgatar a vida que já usamos? Eu que tive sorte em todos os momentos quando disse “sim”, sem noção ou preocupação alguma vindoura. Você com o costumeiro azar daqueles outros momentos onde o “não” prevalecia . Ou talvez velesse-nos o vice-versa?

Ah, meu amigo eu, companheiro indivisível, as vezes, vejo em você meu eu que deu certo. Acho que nunca lhe falei o quanto me sinto parecido contigo. O quanto gosto do seu jeito. Admirei seu eu vivendo como pessoa do mundo e ao mesmo tempo senhor de casa. Muitas vezes discutimos em pensamentos se nosso lugar na vida estava reservado. Hoje, temos certeza que não era exatamente o mesmo lugar para ambos. Você sempre jovem, um eu do esporte, do trabalho, duma cadeira de executivo dirigindo tantos outros eus. Eu, no entanto, já nem pertencia a esse tempo. Preocupava-me com você, evidente, mas apenas superficialmente. Meu olhar perdia-se no sonho de uma janela qualquer do tempo, num nem tão refinado banco de trem, num novo e velho mundo.

Lembro de você, do bom atleta e do jovem insolente que era. Eu, acredite, sempre o invejava silenciosamente. Aos pouco minha inveja tornou-me o oposto. Eu, sonhando sempre em voar, quase velho, quase erudíto. Queria, outra vez, a sua juventude despreocupada e fortalecida pelo dia seguinte. Mesmo passante estava sempre seguramente longe do futuro. Cada dia que deixo para trás, mais preso fico. Afasto-me de você que eras dono da vida que de fato era a minha.  Também sei que estas pensando que não é assim, que a sua vida não era um mar de rosas. Pensas que eu, vagão sem destino, sou mais feliz. Não te iludas. Sei das consequências de sair do trilho. Do descarrilho tardio.

Neste momento tentas me convencer que nos nossos poucos e intensos encontros sentias em mim a ânsia do retorno. Do porto seguro, da rotina calculada, com sábados e domingos em família, dos amigos, do descanso rigorasamente planejado, de um cotidiano razoável. Umas ondas surfadas, numa praia ensolarada e um passaporte aguardando novos carimbos.

Meu jovem eu, desabafo para você que nesse momento estou com os olhos mareados. Precisando do seu abraço. Do seu pulso para seguir nessa busca filosofal de uma vida. De chegar onde desejastes e de voltar para onde nunca quiseste sair. Ouça-me pela primeira vez dizer-te que estou cansado de acreditar nos nossos sonhos. Cansado de sonhar sempre dormindo e de não vivê-los acordados. Juntos, eu e tu.

Novos paradigmas que os anos apresentam na pele como castigo. Uma sala escura chamada tempo. O algoz cruel e passante. Sei que estou parecendo ingrato com meus dizeres. Afinal, juntos também realizamos o belo e o sujo, e tudo era consequência nossa. Companheiros e amigos. Sou feliz por lembrar-nos disso, aliás, hoje não saberia mais viver sem me preocupar com você, o jovem que desabrocha feito gente.

Ouça-me delirando agora, no agradecimento pela minha falta de egoismo. Obrigado por ter sido você um cara “tão legal” ao meu lado, na maior parte da nossa vida. Lamento que não tenha te ajudado a dizer outros “nãos” com a vontade que me cabia e a quem merecia. Ao ler-te hoje, sinto-me feliz em saber que coexisto em alguém. Saber que estas dizendo os devidos “nãos” à vida, e os arriscados “sims” ao tempo. Com muito pouco consegues nos levar tão longe. Que basta-nos a essência do honesto em si e do respeito a tudo, que o todo pode nos ser feio e maravilhoso ao mesmo tempo. Nos importamos em apenas estar juntos.

Façamos, amigo invisível, da nossa, da sua que é minha vida, um gigante playground. Uma Disneylândia eterna. Fotografando o mundo e cada pessoa que cruzar com nossas lentes verdes. Armazenando em nossa memória a vida num sonho acordado! Sim, continuamos juntos, sonhando com os olhos bem arregalados enquanto o corpo que somamos não pede repouso. Livre tem que ser a nossa mente que cria. Livre tem que estar o eu e o tu que ama. Vamos minha criança, homem e amigo, cantemos á vida, pois é através de você que ainda mantenho aceso o ânimo de seguir, seguindo.

Anúncios

3 respostas em “Confissões do eu para mim mesmo.

  1. Olá,eu li sua descrição de si ,texto de profunda analise e intensa vivência
    e pude me indentificar em algumas situações,porque será que pra alguns a idade chega com certas frustações?
    E a parte de “nãos” e sims”, e a ultima frase do 7º parágrafo resume a pergunta feita a ti.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Os nossos “eus” sempre andam em briga com a relação tempo.
    imagino que a cada 10 anos viva juntamente com um “eu” diferente, e nessa relação O “eu ELIANE” seja o parasita.
    Tempo é Deus de todos os mortais, ele existe antes mesmo de qualquer coisa, de nos, dos nossos “EUS”.
    Não criemos confusão, basta entender que passamos pelo tempo, o importante é saber como vc mesmo exclarece, que precisamos deles (eus e tempo), mais do que eles de mim!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s