Enquanto isso…

Amanhã, cedo ou tarde, sobrarei comigo mesmo. Sempre lidando com o tempo que resta.

E, enquanto isso:
Os dedos apontam para mais um dia, para mais um montão de coisas a serem feitas, para mais uma porção de roupas sujas a espera da limpeza, uma casa a espera da refação, um corpo aguarda o sossego, a carne, a força e o carinho, a mente espera a felicidade que sonha existir na porção suficiente para si.

Enquanto isso:
O tempo corre na direção do futuro, impiedoso com os velhos, imperceptível para infância, distante para os jovens. Segue preciso, sábio enrugado, enrugando. Trazendo e levando a vida. Passa o tempo, o eterno, o número infinito, o incontável e inimaginável sem fim.

Enquanto isso:
Verões, outonos, invernos e primaveras virão. Iguais e diferentes. Cada qual com cheiro peculiar, com as cores que os olhos assistem nos detalhes. Serão as mesmas novas flores desabrochando, a mesma grama verde secando, as mesmas folhas velhas caindo, a mesmas ondas iguais espumando na areia flocada por conchas e plásticos.

Enquanto isso:
O concreto sobe. Brota do chão a semente da planta cinza do homem. A fumaça se dissipa. Exala das entranhas da modernidade essa nuvem que carrega toda água que evapora com o calor que estufa o mundo. Água que lava a sujeira sem fim de todos os dias. O verde vira barro, vira areia, vira nada. Seca a vida e todas as suas formas.

Enquanto isso:
Mais homens, mais saúde, mais dinheiro, mais superações, invenções, soluções para os problemas que criamos, mais atitudes e beatitudes para a própria salvação.

Enquanto isso:
Atravessamos a rua, acelaramos o passo, freiamos o bom senso, separamos o lixo, reciclamos o dia, viramos a página, perdemos a hora, levantamos poeira e limpamos a sujeira. Sorrimos para a vida que nasce e lamentamos por aquela que acaba. Sempre igual, sempre diferente. Sempre alegria, sempre tristeza. Sempre a dúvida de quem veio antes: o dia ou a noite?

Enquanto isso:
O galo acorda a aurora de cada dia, lembra a sequência humana e da o beijo de despedida. No olor da manhã mistura-se café. O labor, a chegada do olá, do bom dia, da rotina . O mau humor da segunda e a alegria da sexta, a energia do sábado e a preguiça dominical. Lembra que a semana se faz com cinco dias e outros dois para desfazê-la. Monta e remonta o círculo do tempo e o circo diário.

Enquanto isso:
A chuva cai, o sol se põe e nasce, a nuvem passa, o rio corre para o mar, o mar não corre para lugar algum, as florestas movem-se silenciosas, as montanhas assistem estáticas e imponentes o mundo girar sem pausa. Este mundo que grita com trovões, que sacode as cinzas sem avisos. Cospe seu fogo e sua ira.

Enquanto isso:
Como num formigueiro ensandecido as cidades fervilham. Os países se ajudam ou se matam. O povo do mundo se testa e é testado. Compete, luta, pede, chora, comemora, desmorona, ergue, cresce, incha, adoece, apodrece, morre, nasce, segue sendo mundo dos homens e de ninguém mais.

Enquanto isso:
O tempo rege e orquestra a vida. Não há como nos escondermos. Não há para onde ir nem como pará-lo. O próximo dia virá com ou sem homem. O instante seguinte é inevitável, real e passante.

Enquanto isso:
Escrevo mil palavras, uso mil letras para pintar nessa tela, nessa memória mecânica, a ironia do homem. O Ser pudibundo, o que será nada mais do que homem finito. Diferente do tempo que passa e continua eterno e intocável, a nós resta o presente e lembranças participes do passado. Milhões de pequenas estórias longas e descontinuadas. Todas verdadeiras mesmo quando mentirosas.

Enquanto isso…

(batschauer)

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