Am I a little cactus?

Espinhoso verde cacto
Mesmo feio, tem sua beleza
Verso agora num pequeno vaso
Retirado, outrora, de um imenso e deserto campo
Num, quintal chamado  lembranças
Onde lá, nenhum pássaro voava, só o vento
Vivo solitário cardo nú
Sem nenhuma flor inspiradora
Só, com meus espinhos, vivo apenas um.

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“emojilacionamento”

Incrível como seu silêncio ecoa em mim
Como sua inércia me movimenta

Um bocado de nada para uma punhado de dúvidas
Digitais escorregam na tela aproximando uma distância que aumenta entre nós

Somos repetições de outros erros sociais
Modelos ultrapassados de si mesmos, ensimesmando-se em rede

Nada vem e tudo se vai em teclas virtuais
Feito água abaixo como som de privada
Leva tudo que não serviu e deixa tudo com a sensação do vazio

Minhas lentes se fecham e olham para dentro
Buscando razão que alimente “tresloucada” emoção
Não uma suposta, representada por emojis
Mas real relação do sentir

Na tela, não vejo nada
Silenciosas “carinhas” como respostas
Colorida inércia que carece de movimento
Inerte imagem em que você se movimenta

Quiçá um “search” no google traga-me sua foto de criança
Talvez amanhã venha algo diferente, me diz a esperança
Talvez não, quando você se repete nos idiogramas

Nesse faz de conta que não entendo, brincamos de esconde-esconde de nós mesmos
Achando graça de qualquer sorriso amarelo que sobra
Curtindo “likes” e elogios alheios enquanto o tempo nos torna passado

Inseguro diante desse seu mundo virtual
Não sou moderno, nem anormal
Ainda visto-me com os mesmos Jeans encardidos, usados e puídos
Daquela boa e velha geração do sentir
Que “curtia a vida” ao invés de apenas botões de “curtir”.

Assim, paciente aguardo
Na sombra de uma frase qualquer
Voltares deste emojimundo d’onde fostes
Para ler e ouvir palavras suas
Da mulher como conheci

 

vintage

 

remaking

Nem todos os dias o sol aparecerá
Nem em todas as manhãs o céu limpar-se-á.

Mas não há cinza que não esconda sua beleza
Nem tempestade que não se acalme

Hoje, a exemplo de ontem, nem mais, nem menos solidário com os próprios erros
Como fendas que marcam paredes que envelhecem
Careço de reformas

Sem ter a quem recorrer nesses momentos
Então, como esponja, “me encho de mim mesmo”
No limite da exaustão
Até desaguar-me por todos os poros
Na paciente espera de secar no tempo.

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Evita’s House, Buenos Aires, AR

Livresco talvez

antes que o sol acorde
aporto no café de todos os dias
ancorado no alvoroço apressado de um entra e sai
repito-me no mesmo canto
na xícara com café, leite e letargia

toda manhã

a percorrer páginas
desvendar mundos alheios
todos distintos, alguns parecidos
outros distantes, há muito esquecidos

no meu mundo

alarido de gente passante
vai-se embora desapercebido
foge do alcance quanto mais distante
feito eco que sussurra no ouvido

ignoro

eis-me ali novamente
como outras e outras e outras vezes
tantas em páginas de mil histórias lidas
mergulhando em múltiplas vidas
de desiguais interesses

o tempo que move o dia

anuncia o atraso de sempre
e num suposto último parágrafo
alerta a hora da partida
onde deixo-me na caneta que marca
sufocada entre as páginas expremidas
feito tinta paciente a aguardar

a dose diária de realidade e fantasia

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(batschauer)

 

 

 

 

 

Fragmentos de Pessoa – Livro do Desassossego

download“Em todas as minhas horas libertas uma dor dormia, floria vagamente, por detrás dos muros da minha consciência, em outros quintais; mas o aroma e a própria cor dessas flores tristes atravessavam intuitivamente os muros, e o lado de lá deles, onde floriam as rosas, nunca deixava de ser, no mistério confuso do meu ser, um lado de cá esbatido na minha sonolência de viver”. (Fernando Pessoa)

Casolidão

Chego sem ser notado
No silêncio de casa vazia
Uma TV muda luzes
Como relâmpagos, ignoro

No banheiro da pia gotejante
Marca o ritmo irritante
E todo o resto permanece inerte
Menos o espelho sem expressão que se mexe

Noutra parede esquecida
Um sorriso amarelado pelo tempo permanece onde está
Prisioneiro de um prego qualquer
Em lembranças enferrujadas
De dias esquecidos
Daquele corredor, residente

Não lembro precisar de tal memória
Somente do espaço para acomodar alguns livros de história
Entretanto, como se pudesse falar
A imagem sussura coisas que só eu ouço
Sem entender porque, deixo tudo como antes

Perto dali outro copo, outra pia e uma geladeira vazia
Sede de não ter vontade de nada
Nem de fome, nem de gente, nem de sono ou de estar presente
Um nada meu que se espalha por todos os cantos da casa

O cansaço não me abraça
Sonho não me alcança
Na parede, entre paranhos, nem a traça se move
Quieta, na janela uma sombra qualquer balança
Vítima do vento ruidoso que passa

Expremo os olhos cansados
Tento pousar numa imaginação qualquer
D’onde todo o meu resto corpóreo repouse
Imóvel voe em asas da Phoenix
Entre nuvens de algodão
Na Brumas de Avalon

Mas o sono não se acomoda
A mente faz barulho e não me deixa sumir
No expiral inconsciente meu tudo gira
Aguardo impaciente a chegada d’outro dia

Feito ábum de fotografia
Lá se repetem os Eus nos mesmos lugares
E os mesmos móveis imóveis
Sem que perceba, me acompanham até a saída
Como todos os dias, sempre a troco de nada,
por uma volta à casa da solidão.

Divã

Meu divã é minha imaginação
Um aglomerado de histórias infantis
Um baú de recordações que alimenta o presente
Com tudo que foi bom
Com tudo que foi ruim
Com tudo que foi e não volta mais

Meu divã são as palavras que escrevo
Apresentam-me a mim mesmo
São todos os ditos poéticos e descritos arquétipos da minh’alma
De uma mente que não se explica
Ou uma alegria que se sente
Até da tristeza que não compreendo

Meu macio divã são os pensamentos por onde flutuo
São passantes nuvens e sonhos amórficos
Memórias de um corpo indivíduo
Visões translúcidas dos meus frágeis vidros verdes
Que memorizam e perdem todas as imagens guardadas
Misturam datas, nomes, cores e temores

Meu solitário divã sem macias almofadas
Não representa sentimentos teatrais
Nem exprime conforto em razões pontuais
Serve-me apenas como trampolim emocional
Como base racional

Divã de papel e tinta
Multiformas desenhadas do que sinto
Escancara imagens fechadas de mim mesmo
Transcreve-me num eu que são muitos distintos
Todos, ao mesmo tempo, numa só essência

Meu divã, meu confiossionário, meu diário
Meu ontem, meu hoje e onde estarei amanhã
Sempre dentro de mim
As vezes fora de si
Outras sem saber onde ir
E no final de cada linha, volto para o embaraço poético da vida
Para um conto real quase sempre sem rima
Retorno a desenhar estrofes de estranhas entranhas
De um eventual analista escritor
Um de signo aventureiro
Suposto haríolo do sentir

Acabo sempre neste divã de letras, papel e tinta
Termino aqui neste assento literal onde sempre começo
N’algum lugar onde desnudo fantasias
E reescrevo-me quantas vezes impreciso for
Literalmente, todos os dias

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Donostia (San Sebastian), País Basco

(batschauer)

Atenção, redutora da tensão

Pode, a primeira vista, parecer óbvio e desnecessário repetir–se no assunto. Entretanto, o óbvio é isso mesmo, lugar comum que se conhece e não se quer voltar.
O óbvio é exaustivo e insistente e por razões (óbvias), o ignoramos.  E é só lá, quando o óbvio arregaça as mangas e mostra os dentes que lembramos; era óbvio!

Já a novidade, antagonista do obviedade, é dona incontestável de considerável e inegável parcela de atenção. É nela que aninhamos nossa ânsia bandeirante. Por estas paragens que, esperançosos, aguardamos os louros daquela que, feito elixir rejuvenecedor, consegue aliviar nossas almas expectadoras e ansiosas por qualquer coisa que não nossa velha conhecida. Também a empreender um sentimento quase infantil de felicidade, aliado a uma juvenil vontade de seguir arriscando desajuizadamente, acontença o que acontecer, até sabe-se lá onde.

Mas a novidade, como tudo que existe no mundo dos homens , envelhece, tem prazo de validade. Logo, a tão festejada novidade já não o é mais e torna-se passado, um história, uma experiência, enfim, incorpora-se ao rol das obviedades. Passa a habitar as lembranças como epitáfios em lápides esquecidas. O novo do agora, que é jovem e viçoso, promissor apaixonado e por que não, dizê-lo sonhador, logo comporá a enciclopédia das velhas novidades, lar onde residem as obviedades.

Difícil, porém não impossível tarefa, é admitirmos que o óbvio antes de sê-lo, novidade fora, que ficou velho, que está pacientemente a espera de alguma memória eloquente quando não restarem alternativas. Lembrar que é no óbvio onde residem boa parte das soluções senís para novos problemas. É na experiência axiomática e na sua previsibilidade que podemos deduzir desatentas ações e escolhas.

É, sem muitos rodeios, óbvio que estar atento a tudo, ampliará as chances de alcançarmos um nirvana budista, um céu cristão, uma felicidade aleatória numa suposta plenitude ou seja lá qual for a orientação, o caminho que cada indivíduo opta para sua jornada através do seu tempo.

Entretanto, esse óbvio, como filho pródigo que só retorna quando não encontra outra altenativa senão uma que de tão evidente parecia a menos eloquente, requer muita atenção. Sim, atenção é a palavra de ordem. Da mesma atenção dedicada à novidade, carece a obviedade. A angústia, inerente ao homem sedento pelo novo, desvia sua atenção e busca completar-se nas efêmeras novidades, ignorando o velho e bom óbvio e convergindo a necessária atenção para uma desnecessária tensão.

Meme e bom senso ainda não se conheceram

Se empregassemos a criatividade e o tempo que nós, brasileiros, gastamos em redes sociais inventando, contando e rindo das próprias piadas, certamente seriamos levados mais a sério pelo resto do mundo. Nada contra o bom humor, claro que é importante sim. Mas o bom senso é tão importante quanto. Poxa, mal o norte-americano candidato republicano ascendeu à casa branca, como num passe de mágica, milhares de mensagens de repúdio, montagens, piadinhas, etc, começaram a circular nos  grupos e redes sociais feito água de enchente. Se alastram viralmente mais do que o Chikungunya e Zika virus juntos, inclusive lembrando que esses dois infortunios da natureza também estão na mira dos mesmos  engraçadinhos estapafúrdios que não fazem ideia do que é adoecer ou padecer pela perda de quem se ama, vítima desses nem tão engraçados “passageiros” de mosquitos. O mais intrigante nisso tudo, é que rimos das piadas, compartilhamos as mensagens, comentamos sobre os possíveis males, apontamos os erros alheios e mais uma infinidade de opiniões despropositadas, mas na hora de chutar o balde desta bandalheira política que anda transbordando com a delapidação dos nossos bolsos, esvaziando discaradamente os cofres públicos, sobretaxando nosso trabalho, ignorando nossa indignação, simplesmente ficamos na inércia feito palhaço que ri da própria face frente ao espelho. Pior, criamos mais um “zilhão” de piadas, memes, frases de efeito, críticas sem pés nem cabeça e seguimos espalhando toda essa bosta humana no ventilador da Internet. E o bom senso onde anda? Rir da própria ignorância ou da desgraça alheia agrada tanto quanto sair dissiminando a estupidez mundo a fora? Como poderemos ser encarados como um povo sério se a única coisa realmente séria é esse complexo de inferioridade e discenso sobre a realidade na qual estamos afundando e que não tem graça nenhuma. Fala-se dos efeitos midiáticos sobre as massas como agente responsável pela alienação, quando na verdade somos todos alienados por não conseguir ou querer enxergar o próprio rabo e rirmos da própria dor ao deixá-lo solto para os outros pisarem. Que loucura de comportamento é esse? Ser engraçado as vezes é bacana sim, mas atestado de estupidez com selo de qualidade e tempo ilimitado, ninguém merece!

A previsibilidade não garante a certeza.

Podemos usar, em muitas circunstâncias, pretextos para predizer o futuro. Mas o fato inequívoco é que o futuro está fora do nosso alcance. Então por que formulamos pré-concepções para estabelecer possíveis crenças baseadas em possibilidades?

Sim, podemos escolher semear na areia do deserto contando com a probabilidade da chuva num momento próximo, embora aquelas areias a muito não recebam uma gota de chuva. Assim como no exemplo anterior, da mesma forma podemos fazer inúmeras escolhas baseadas em probabilidades. Podemos, inclusive, pré-dizer que nossas escolhas são baseadas em experiências passadas e por isso as chances de uma previsão acertada, relativa a recorrência, é oriunda da dedução, portanto, reforçando as probabilidades acertivas.

Entretanto, todas as certezas humanas são subjetivas e habitam somente o campo das ideias dos homens. Dados pré-formatados, sugerem o que nos parece óbvio ou inteligível, mas estão sempre sujeitos ao equívoco. Ora, o que isso quer dizer então? Que não dispomos de mecanismos capazes de prever os acontecimentos baseados na experiência? Ou ainda que achismos não nos permitem previsões? Que não há como precisarmos com grau de objetividade cirúrgico sobre o que ainda está por vir?

Para nossa sorte e azar, somos desprovidos de tal aparelhagem de precisão que nos remete ao tempo futuro providos de certezas. Ainda mais quando nos referimos ao comportamento humano. Nessa área o “talvez” se fortalece na expressão da possibilidade. Dizer que se agirmos assim ou assado resultará nisso ou naquilo, é ato estatístico, porém não absoluto. Pré-dizer a respeito dos comportamentos humanos beira o possível, mas não a precisão. Acumalamos no decorrer da vida, repetições de atitudes, de ações, que nos ensinam a praticar a dedução sobre o amanhã. Bastando-nos para esse aprendizado gatilhos cíclicos. Embora a observação nos conduza ao aprendizado sobre comportamentos, a previsibilidade é sempre uma sorte lançada com maior ou menor margem para alcançar um resultado esperado. Da mesma forma que a repetição das experiências nos leva a crer que estamos aptos a prever o ato seguinte, a próxima decisão, o comportamento esperado, também éo gatilho da mudança comportamental.

Se somos capazes de apreender com a experiência e reconhecer possíveis repetições, também podemos usar esse mesmo aprendizado para “repreender”, no sentido de censurar, as repetições e optarmos pelo diferente. E se assim o fizermos, e constantemente fazemos conscientes ou não, as reações tornam-se flexíveis e a probabilidade como pretexto para justificar as ações passadas ou presentes, as repetições, se diluem no oceano do achismo. O achismo, por sua vez, representa a incerteza, portanto, suas consequências novamente são imprecisas. O fato de existir a mutabilidade na ação presente torna a previsibilidade humana uma prática subjetiva no sentindo de pré-dizer resultados. É no campo das emoções que esta previsibilidade é ainda mais complexa e distante da certezas do homen do futuro.

Diante disso, reduzir os achismos é um caminho para que as probabilidades, embora não precisas, possam estar ao alcance dos nossas previsões. Nesta direção, a verdade e a mentira, assim como a revelação ou omissão “poderão”, e uso aqui o verbo que exprime a possibilidade, criar cenários possíveis e juízos inprecisos. Entretanto a verdade, na contramão da mentira, assim como a revelação está para a omissão, são artíficios aplicáveis no sentindo de prevenção contra achismos, inseguranças, dúvidas ou falsas ideias que a inverdade e o silêncio ampliam numa relação de juízos sobre escolhas, atitudes alheias e probabilidades.

A sinceridade é uma abertura do eu que nos mostra tais como somos, é um amor gratuito à verdade, um ato que repugna a mentira. Plena do desejo de reparar ou diminuir quaisquer defeitos, pelo simples mérito de confessá-los, a recusa da omissão é um ato de amor próprio e fortalecedor da lealdade. Há que se prefir a verdade mesmo que dolorida à omissão dissimulada e potencializadora das incertezas. Se por alguma razão nos permitimos prever uma reação alheia, então que esta venha alicerçada na exposição e na verdade. Então, na pior das hipóteses, uma consciência livre e objetiva ampliará as chances do aprendizado e apreensão do conhecimento mesmo como ferramenta imprecisa, porém ciente que as probabilidades do mal juízo serão menores que as do bom julgamento.