am…

…o tempo corrige meus erros,
leva minhas partes, move meu eu

…o tempo vai e não volta, feito pedra lançada,
feito dedo na cara, segue silencioso

…o tempo está sempre a espreita,
aguarda meus descuidos, ensina novas lições

…mas ele não me engana não, há muito bricamos juntos,
de coisas diferentes

…o tempo, de pega pega, enquanto eu,
de esconde esconde

….ele sempre me pega, sempre me acha,
sempre ganha, mas

…enquanto a brincadeira durar, eu aproveito.

(batschauer)

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(baile átha Cliath) Dublin – Foto: Marcelo Pasqualin Batschauer 

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Ruídos

sonídos
invisíveis e quase inaudíveis
reverberando pelos cantos da mente

ecoam

signos indecifráveis
mergulhados em mim
nú escuro

meios sentidos

tateando contradições
todas minhas
onde sinto

que passam

no breve entre-luz
de um demorado piscar de olhos
onde reflito

no tempo

que alarido é esse?
parece me julgar
em seu mudo senso

que não para

de me apontar
dedos em riste
a dizer-me

o que sou

afogando seus conceitos
na doce saliva
do sonhado beijo

que é só meu

sim e não
outra contradição
inerte lamento

esse sopro sem direção

mais e mais de mim mesmo
sufoca
todo desejo 

 faz me perder

 

 

Uma carta para a loucura!

No betume cravejado de pequenos pontos cintilantes, feito quebra-cabeças de encaixes impossíveis, habitam estrelas, peças espalhadas no infinito tabuleiro de um universo sem fim. Pois é, aqui estamos, existindo entre a ordem e o caos, entre a dúvida e a certeza, entremeados por ambiguidades loucamente necessárias.

E, se isso que lhe digo agora parecer mesmo loucura, acredite, é verdade. Afinal, dizer-se sã não passa de ilusória criação nossa, de bicho homem. E é nessa loucura, nesse estado tão imcompreendido, que as nossas verdades ululantes não são garantia alguma. Sem silogismos, a vida é uma loucura, uma verdade e vice-versa.

Amiga, ri disso e desse homem, sonhador que sou. Da minha crença de que um dia visitarei todas estrelas que enfeitam e iluminam o universo escuro. Ri de mim mesmo, do romântico altruísta, do sovina dos “nãos” que se acumulam n’algum canto dentro de mim. Ri do amor que se apresentou de tantas formas, tão puras, tão lindas e doloridas. Ri das vezes que disse “eu te amo” e que no fundo dizia: você me pertence. Ri do meu egoismo inocente e da desgraça que volta e meia mostra os dentes. Ri das minhas e das suas contradições sem fim, que passam, que mudam e silenciam no passado.

Ora, para você que me lê, digo que ri, mas também que chorei, não vou mentir. As vezes de tanto rir, outras o porquê nem sei. Dos comerciais de margarina e daquele adeus mudo para nunca mais. Daquela ideia de amor infinito que acabou, do incondicional sob condições. Das paixões não correspondidas, amargas e arrependidas. Ah, minha amiga! Chorei também do arrependimento, dessa ferida d’alma que não cicatriza. Também do estado de espírito que nunca alcancei, por ele chorei. Entremeado na multidão e na solidão chorei, nesses lugares onde me senti tão pouco. Chorei, inclusive, ouvindo a nossa canção, aquela que parecia nos conhecer tanto. Na diária paisagem repetidamente passante e nas leituras das mensagens guardadas, nos versos e nos inversos chorei rindo e ri chorando.

Mas, preciso te dizer que tudo daqui observo, desse ponto impreciso no universo onde vivo, choro e sorrio. E, costumeiramente, dou-me conta que meu olhar não me encontra. Desatento espiando tantos outros sós, nos seus mundos de faz de conta, são como espelhos de mim mesmo. Então, é aí que minha subjetividade existencial se apresenta:
– Prazer, me chamo Loucura e você?
Minha objetividade responde:
– Quanta coincidência meu Xará!

(batschauer)

Esta carta foi escrita a pedido de uma pessoa amiga, cujo contato nunca transcendeu a blogosfera, mas que por sua riqueza, naturalidade e carinho gratuitos, alcança um patamar de admiração e respeito mútuo tão raros em tempos de amores líquidos. Uma espécie de incodicionalidade que só nos engrandece e nos faz querer superar mais e mais as contradições da vida. Obrigado minha querida e admirável amiga Elaine Reis.

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Someone like us… London, UK Foto: Marcelo Pasqualin Btaschauer

 

Pensamentos distantes

“Lembre que nesta vida, tão sensivelmente efêmera,  somos como gotas de chuva regando o solo seco que tudo absorve e faz brotar. Flocos de neve na terra quente que tudo evapora. Somos assim. Sempre um fim onde tudo recomeça”.
(batschauer)

Somewhere on Scotland

Somewhere on Scotland

A vida começa aos…

Quem nunca ouviu uma frase assim?
Dias a trás, mais uma vez, numa roda de conversas, esta pérola da sabedoria humana emerge:

“A vida começa aos quarenta anos”!

Deixei a roda e me coloquei a pensar se isso era coerente de fato ou apenas uma forma de nos conformarmos com a idade que avança, com as mudanças físicas e psicológicas que emergem nesse percurso. Sim, a vida pode muito bem começar aos quarenta anos de idade, por que não? Afinal, podemos partir da ideia de que ao chegarmos aos quarenta a grande maioria das pessoas já trilhou muitos caminhos, se experimentou em muitas coisas e, supostamente, alcançou a maturidade em distintas áreas da vida humana, como por exemplo: o trabalho, as relações sociais, os sentimentos, a maternidade (paternidade), a própria sexualidade e por aí a fora. Aos quarenta anos podemos dizer que alcançamos a “mea idade“, ou seja, a metade do caminho até o fim da vida. Faz sentido, não?

Mas, como não me contento com pontos finais, com verdades absolutas, segui refletindo sobre esse pensamento popular, tão dissiminado e muitas vezes levado a sério em demasia. Influenciando, inclusive, o comportamento das pessoas de tal forma que parece apagar tudo o que fora vivido até então. Ora, não se trata aqui, nessa reflexão, pensarmos em termos exclusivamente biológicos, evidentemente. Por razão lógica e economia da falácia, pularemos essa realidade objetiva da qual temos ciência de que a nossa vida biológica começa lá, no primeiro momento dentro de uma bolsa escrotal até completarmos a árdua travessia para alcançar o útero donde fecundaremos o óvulo e, tudo como conhecemos toma forma, uma que podemos chamar de vida, de indivíduo, como quisermos. Mas, como disse, não é sobre essa vida que o dito popular trata, mas uma de auto satisfação, de encontro consigo mesmo, de escolhas próprias, de reconhecer em si mesmo aspectos que, aparentemente, não eram valorizados até aquele momento. Também não tenho intenção de discutir as subjetividades do pensamento humano quanto as questões relacionadas a possíveis vidas passadas, a reencarnações ou coisas metafísicas que fazem parte das crenças humanas e que para muitos satisfazem e explicam os porquês da nossa existência. Lembrando que, refletir não é estabelecer nenhuma verdade, nenhum conhecimento absoluto, mas sim, um exercício do livre pensar sobre as coisas, inclusive aquelas que parecem banais como a ideia de que a vida possa mesmo começar num determinado momento cronológico da existência individual.

Também não se trata de negar que a maturidade nos faz enxergar valores tão distintos daqueles da infância, da juventude ou da idade adulta. Mas sim, lembrar que todas essas fases são determinantes na formação do ser até o momento em que este se encontra pensado que a vida começa numa idade “x”. Estabelecendo, ideologicamente, que esta possa ter início num dado momento posterior a todos os fatos que o constituiram até alí, que o trouxeram a esse lugar onde se sente seguro para afirmar que a vida têm seu início numa idade onde olhamos para trás e comparamos nossas experiências, negando ou admitindo que foram etapas onde não compreendiamos adequadamente seus valores. Tenho a impressão, também, que cremos nisso pelo fato de consideramos que muitas das nossas decisões, escolhas e ações foram realizadas sem termos consciência dos seus significados, nos levando a acreditar que doravante, que a partir desse momento no qual afirmamos que a vida começa na idade “x”, estamos plenamente conscientes das próprias crenças, do quê dizemos e fazemos. Ao refletir sobre, não me parece justo afirmarmos isso. Mergulho nessa ideia e me obrigo a buscar nas próprias lembranças os significados de tantos momentos.

Sim, uma forma de repensar a vida e avaliar o que foi bom e o quê não. De compreender os excessos e carências que me edificaram. Procurar entender escolhas as quais repetiria ou mudaria e, também, de pensar se em cada momento experenciado não foi, da mesma forma, um começo necessário nesse processo inquietante e mutável na construção individual(moral e ética) até o meu agora. É nesse instante, onde afirmamos, de forma muitas vezes categórica, que a vida começa na idade “x” onde muitos dirão: sim, por tudo isso é que podemos afirmar que a vida começa nessa idade.

Eis que me encontro nesta intensão reflexiva sobre este dito. Avaliando este pensamento relacionado a ideia de felicidade de cada ser humano. De sentir a plenitude das escolhas como algo que está super consciente desta idade para frente. De que outros começos não existirão depois dos quarenta ou cinquenta anos de idade. Que a sensação enebriante de felicidade, uma vez supostamente alcançada, invoca em nós a certeza da plenitude, do verdadeiro começo, da satisfação consigo mesmo e com as realizações que fundamentam um recomeço cronológicamente tardio. Ideia essa que nos dá indícios de que desta idade em diante seremos totalmente conscientes das nossas atitudes, das nossas escolhas. As armadilhas da inocente inexperiência da idade antecessora não mais se repetirão. Foi pensando sobre isso, sobre essa possível “idade do começo da vida”, onde acreditamos ter alcançado a sabedoria necessária para estabelecermos a plenitude das satisfações e anseios, que deparo com a contradição desta crença tão comum, desta verdade popular tão inocentemente difundida. Não uma contradição que nega a chegada da maturidade, mas uma que nos apresenta que a satisfação com a vida não está, e nem pode estar, atrelada a um tempo cronológico específico. Seria negar que tudo o que antecedeu até esse momento não foi, da mesma forma, um começo.

Não seria o mundo das ideias que Platão nos apresentou o lugar onde alimentamos os “começos” da vida? Que não dependem de uma idade cronológica, tornando-se assim incessantes até o fim da própria existência?

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Penso, logo insisto!

 

Vigie seus pensamentos, porque eles se tornarão palavras;
Vigie suas palavras, porque elas se tornarão seus atos;
Vigie seus atos porque eles se tornarão seus hábitos;
Vigie seus hábitos, porque eles forjarão seu caráter;
Vigie seu caráter, porque ele é você.

(batschauer)
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Resiliência

Vá tempo, me leve para onde fores
Venha chuva, me lave como lavas o mundo
Vá vida, me dê sua sabedoria
Venha futuro, me humanize mais e mais
Venham todos que me amam assim
e juntos superaremos muitas contradições
(batschauer)

 

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Foto: Marcelo Pasqualin Batschauer, London, UK

 

 

 

Transeunte

“Escorrego leviano pelo tempo como uma criança inocente num playground. Imaginando um mundo de diversões e dimensões sem fim, de arredondados cantos coloridos infinitos. Lembrando sempre que passageiro sou eu e que a janela do trenzinho da vida acomoda o melhor lugar para se admirar a aquarela que passa apressadamente lá fora. O tempo voa, feito foguete espacial, mas o único que será passado, já que o tempo não se desfaz, serei eu nesse corpo que carrego e que será um dia esquecido pelo futuro desconhecido. Talvez me torne uma vaga memória na história escrita para jovens, ou nem isso. Não mais que algumas poucas gerações lembrarão do filho, do pai, do avô, com sorte do bisavô. Daquele transeunte na multidão solitária que pensava coisas antigas, ora salgadas e amargas, ora doces feito suspiros. Todas velhinhas, um tanto delas sensatas, outro tanto insanas, mas todas desenhos próprios das experiências assimiladas, algumas modificadas, outras minhas, mas todas da longa e efêmera vida deste desconhecido Eu que são muitos distintos”. (batschauer)

 

Mude o discurso ideológico radical. Sugira soluções para melhorar. Só criticar é inútil.

Tá chato, desgastado e hipócrita esse discurso que culpa as “elites, essas abominantes elites! Que fala das minorias como se a igualdade fosse algo possível para todos num mundo de pessoas diferentes! Que acredita em opressores e oprimidos como se cada um deles pudessem dizer:  Agora eu vou ser opressor pois minha indústria esmagará todos seres miseráveis e despresíveis que trabalharão de forma escrava para mim! Ou, do lado oposto deste disco igualmente arranhado: Por não ser abastado e poderoso como meu patrão, nem ter acesso aos confortos dos ricos,  sou oprimido e vítima de um sistema injusto e que me quer assim, pobre e inerte.

Mude o discurso ideológico radical.

Quando esses discursos insensatos irão parar? “Tá” cansativo companheiro e companheira, vamos lá, mude a fita, mude o discurso, mude o jeito de se olhar como vítima de tudo e das circunstâncias. Mude esse pensamento partidarista radical, mude o tom da voz, mude para somar e multiplicar e não para subtrair e dividir. Quer defender uma ideologia, acho ótimo, Gandhi fez isso de forma pacífica e sem agressões verbais e adjetivadoras. Mas em nenhuma hipótese defenda a corrupção e a impunidade! Cite todos, mas não exclua quem rouba, pois ninguém lá, digo, nessa política individualista, nesses sucessivos governos de faz de conta, é santo salvador, é alma pura ou é “do povo, para o povo”. Todos que encaram a política como trabalho, em forma de salário, almejam o poder para si e para os seus, o controle e tudo mais que lhes garanta uma vida segura e confortável. São candidatos a uma vaga para representar no sentido teatral da palavra.  E as supostas lutas de classe que dizem compreender, caem por terra quando agem ilicitamente com o dinheiro alheio. E o coletivo social, além do voto, pode apostar, não está incluso nos planos políticos. Isso vale para todos os esquerdopatas, direitopatas, centropatas e demagogos que fazem a roda girar para onde querem que gire. Vale para os azuis atucanados, para os medievos vermelhos e todos que voiciferam ou que se calam. Também para os que invadem e vendem e para os que vendem sem invadir. Não, não defenda o indefensável, nem grite em vão para defendê-los.

Sugira soluções para melhorar.

Sugira ideias novas, práticas sociais saudáveis, governanças ajustadas ao ideal coletivo, mas não venha com esse discurso pronto de que “esse” e “aquele” estão unidos para prejudicar “aquele” e “aquela”. Que se repete, que se anula, que se agrava e que em nada, absolutamente nada, contribui. Menos, bem menos por favor. Isso não constrói coisa alguma além da discórdia e desunião. Alimenta ideologias rasas que se tornarão pensamentos radicais nas mentes fracas que não conseguem olhar para além do que é velho, desgastado e inútil. Quer gritar? Então aos gritos sugira e mostre para todos que é assim e assado que se faz a coisa certa, porque você já tentou e deu certo! Mas não insista numa suposta verdade em forma de opinião. O dedo em riste gera opiniões dualistas e, quase sempre, descontextualizadas. Poupe saliva para cuspir acusações e use a palavra para promover ideias que melhorem o que está ruim. Oras, que está ruim, isso todos sabemos. Onde está ruim, também sabemos. Mas lembre, antes de agredir, que o bem não é privilégio de um lado só, nem o mal algo unilateral. Todos são culpados de alguma forma. Todos! Inclusive eu e você que me lê. Quando acusamos sem sugerir não estamos mudando nada de efetivo, apenas aliviando o peso da culpa dos próprios ombros e usualmente preferimos o caminho mais fácil, mais curto o de se apropriar do discurso pronto à ter que gastar fosfato e pôr a mão na massa.

Só criticar é inútil.